27 fevereiro, 2007

 

Amazônia - a Grande Saga Brasileira Não Escrita


 

A literatura brasileira é repleta de histórias sobre o Nordeste (antigo eixo econômico/cultural do Brasil) e o Sudeste (atual centro das atenções do País), muitas delas adaptadas para o cinema e televisão. O Sul, mesmo que periférico, ficou culturalmente famoso graças a escritores como Érico Vérissimo, autor da epopéia "O Tempo e o Vento", também magistralmente adaptada para a TV na década de 80, época áurea do "Padrão Globo de Qualidade" (qualquer dia eu compro o DVD com a série).

Só as histórias da Amazônia é que permanecem largamente esquecidas, como os tesouros da mata, esperando alguém para desbravá-las e mostrá-las ao mundo. Os americanos têm o mito do "Wild West", ou "Far West". Nós, sempre fazemos confusão entre Rondônia e Roraima ("qual é o de cima mesmo?"). O que para eles foi um novo começo, um novo ideal, para nós permanece uma incógnita.



Ano passado, a Globo exibiu a minissérie "Mad Maria", sobre a construção da malfadada ferrovia Madeira-Mamoré. Realmente, é uma história e tanto: barões capitalistas sem alma do início do Século XX levando uma leva de caribenhos e alemães para construir uma ferrovia ligando nada a lugar nenhum no meio da selva amazônica, sob as piores condições possíveis. O problema é que a minissérie tinha duas partes: uma, na selva, onde estava a verdadeira ação, com porradaria e malária comendo solto na construção da ferrovia; a outra, no Rio, com as insuportáveis "sub-tramas românticas" que infestam todas as novelas e minisséries da emissora. Ter que dividir minhas atenções entre um capítulo pouco conhecido, fascinante e trágico da História brasileira e os romances fictícios de Percival Farquhar dignos de novela das oito foi um dos motivos para me levar a desistir de acompanhar "Mad Maria". Para não falar no horário ingrato.

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"Amazônia - de Galvez a Chico Mendes" também tem um roteiro interessante, a começar pela primeira parte, com a quase inacreditável história da anexação do Acre. É difícil imaginar a disposição de milhares de nordestinos, em fins de século XIX, que se embrenharam mata adentro e foram parar no longínquo Acre, a quase 2.000 quilômetros do centro urbano mais próximo (Manaus). Sem querer, atravessaram a linha imaginária da fronteira boliviana e provocaram a maior anexação territorial brasileira do século XX. Depois, a minissérie terá outras partes, chegando até as lutas de Chico Mendes, o primeiro eco-mártir do mundo.

Seria um marco da televisão brasileira, não fosse por... Glória Perez e sua multitude de subfolhetins românticos e personagens secundários. Claro, não espero que uma minissérie da Globo seja um documentário do History Channel, sei que personagens e romances são necessários para mostrar o "lado humano" da coisa, mas... quando uma "minissérie" caminha para a casa dos 50 capítulos, e ainda nem chegou ao fim da primeira parte, algo está errado. "Amazônia" se transformou num novelão, com suas mulheres patéticas dizendo coisas como "você pensa mais no Acre do que em mim!" para ninguém menos que o fundador do Estado, Oscar Galvez.

Bom, talvez um dia nossos noveleiros/cineastas (cineastas?) aprendam a contar capítulos de nossa História em menos de 200 capítulos, elencos milionários e sub-tramas românticas para agradar a telespectadora viciada em novela. Como os americanos.


 

 

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