27 fevereiro, 2007

 

Será que estou me transformando num monstro?


 

William Bonner e Fátima Bernardes recitam as manchetes do JN. Minha reação:

"Menina de 3 anos é baleada e morta em assalto em São Paulo."

Zzzz...

"Menino de 4 anos é morto por bala perdida enquanto brincava numa favela em Santo André."

Zzzz...

"Franceses que mantinham ONG para crianças carentes são assassinados no Rio."

Zzzz...

"Carro bomba explode no Iraque e mata oitocentos."

Zzzz...

"Filisteus invadem a Criméia e matam mil."

Zzzz...

"Charlie Brown Jr. lança novo CD."

Zzzz...

"Vice-presidente americano Dick Cheney escapa de atentado no Afeganistão."



AAAAAARRRRGGHH! NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOO! PUTA QUE PARIU! TUDO MENOS ISSO!!!!!! POOOOORRRRRAAAAAA!!!!!! CARÁÁÁÁÁIII!!!!



Acordei pouco depois, meio verde, e com as roupas rasgadas. Pelo menos a cueca ficou inteira...

 

 

 

Amazônia - a Grande Saga Brasileira Não Escrita


 

A literatura brasileira é repleta de histórias sobre o Nordeste (antigo eixo econômico/cultural do Brasil) e o Sudeste (atual centro das atenções do País), muitas delas adaptadas para o cinema e televisão. O Sul, mesmo que periférico, ficou culturalmente famoso graças a escritores como Érico Vérissimo, autor da epopéia "O Tempo e o Vento", também magistralmente adaptada para a TV na década de 80, época áurea do "Padrão Globo de Qualidade" (qualquer dia eu compro o DVD com a série).

Só as histórias da Amazônia é que permanecem largamente esquecidas, como os tesouros da mata, esperando alguém para desbravá-las e mostrá-las ao mundo. Os americanos têm o mito do "Wild West", ou "Far West". Nós, sempre fazemos confusão entre Rondônia e Roraima ("qual é o de cima mesmo?"). O que para eles foi um novo começo, um novo ideal, para nós permanece uma incógnita.



Ano passado, a Globo exibiu a minissérie "Mad Maria", sobre a construção da malfadada ferrovia Madeira-Mamoré. Realmente, é uma história e tanto: barões capitalistas sem alma do início do Século XX levando uma leva de caribenhos e alemães para construir uma ferrovia ligando nada a lugar nenhum no meio da selva amazônica, sob as piores condições possíveis. O problema é que a minissérie tinha duas partes: uma, na selva, onde estava a verdadeira ação, com porradaria e malária comendo solto na construção da ferrovia; a outra, no Rio, com as insuportáveis "sub-tramas românticas" que infestam todas as novelas e minisséries da emissora. Ter que dividir minhas atenções entre um capítulo pouco conhecido, fascinante e trágico da História brasileira e os romances fictícios de Percival Farquhar dignos de novela das oito foi um dos motivos para me levar a desistir de acompanhar "Mad Maria". Para não falar no horário ingrato.

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"Amazônia - de Galvez a Chico Mendes" também tem um roteiro interessante, a começar pela primeira parte, com a quase inacreditável história da anexação do Acre. É difícil imaginar a disposição de milhares de nordestinos, em fins de século XIX, que se embrenharam mata adentro e foram parar no longínquo Acre, a quase 2.000 quilômetros do centro urbano mais próximo (Manaus). Sem querer, atravessaram a linha imaginária da fronteira boliviana e provocaram a maior anexação territorial brasileira do século XX. Depois, a minissérie terá outras partes, chegando até as lutas de Chico Mendes, o primeiro eco-mártir do mundo.

Seria um marco da televisão brasileira, não fosse por... Glória Perez e sua multitude de subfolhetins românticos e personagens secundários. Claro, não espero que uma minissérie da Globo seja um documentário do History Channel, sei que personagens e romances são necessários para mostrar o "lado humano" da coisa, mas... quando uma "minissérie" caminha para a casa dos 50 capítulos, e ainda nem chegou ao fim da primeira parte, algo está errado. "Amazônia" se transformou num novelão, com suas mulheres patéticas dizendo coisas como "você pensa mais no Acre do que em mim!" para ninguém menos que o fundador do Estado, Oscar Galvez.

Bom, talvez um dia nossos noveleiros/cineastas (cineastas?) aprendam a contar capítulos de nossa História em menos de 200 capítulos, elencos milionários e sub-tramas românticas para agradar a telespectadora viciada em novela. Como os americanos.


 

 

 

 

23 fevereiro, 2007

 

Nota de Esclarecimento


 

Anda navegando pelas caixas de e-mail sertão afora um texto horroroso, mal escrito e falsamente assinado pela escritora Marilene Felinto, que escreve mensalmente na revista Caros Amigos. O texto atribui a culpa pela morte do menino João Hélio aos seus pais, por serem ricos, brancos e de olho azul (!), e diz que os assassinos são vítimas inocentes do sistema blá-blá-blá. Não se trata de um texto anônimo pegando carona num nome conhecido, como é o caso das já famosas crônicas atribuídos a Arnaldo Jabor ou Luís Fernando Veríssimo que vira-e-mexe aparecem em sua caixa de e-mail. Neste caso, trata-se de uma tentativa deliberada e criminosa de desmoralizar a escritora, como uma ridícula prova de que a moça "está dos lados dos bandidos".

A própria Caros Amigos, em sua página na internet, alerta sobre o artigo falso de sua colaboradora, que tem recebido uma enxurrada de e-mails espumando ódio por conta do artigo que não escreveu.

Há uma razão especial para quererem atribuir este texto à escritora: em 2003, ela escreveu o artigo "Morte de Menina Rica e Ódio de Classe", publicado na Caros Amigos, indo contra a corrente de "comoção nacional" provocada pela morte da adolescente Liana Friedenbach em Embu-Guaçu-SP (lembram?). Na ocasião, Marilene Felinto denunciou a hipocrisia da mídia, da polícia e autoridades, em tratar de forma tão diferente as tragédias de ricos e pobres; criticou o rabino Henry Sobel, que propôs a adoção da pena de morte ("o rabino deve ter achado que aqui é uma espécie de Israel – e que a esmagadora maioria dos brasileiros, da classe pobre, é uma espécie de Palestina a ser eliminada da face da terra!"); e apontou a desigualdade social como um motor da criminalidade.

A forma áspera de abordar o assunto e a audácia de ir contra o pensamento único imposto em momentos de "comoção nacional" (problema Tostines: a mídia capta a "comoção nacional" que emana das ruas ou as ruas captam a "comoção nacional" que emanam da mídia?) foram interpretados, por uma larga massa de imbecis que tiveram acesso ao texto, como "defesa dos bandidos" e "apologia ao crime". Principalmente por conta deste artigo, a escritora foi hostilizada através de e-mails e comentários deixados numa comunidade do Orkut aberta por seus admiradores (com a qual a própria escritora não tem qualquer envolvimento). Até a Desciclopédia, normalmente tolerante com as críticas e ofensas deixadas a "personalidades odiadas" precisou bloquear o artigo dedicado à escritora.

Este textozinho sobre o João Hélio é apenas a cereja no bolo de uma campanha covarde de difamação. Se você receber esta porcaria, não a repasse. Melhor ainda: devolva-o à pessoa que o encontrou, alertando-a para largar de ser idiota e não repassar qualquer porcaria que recebe para os outros.

 

 

 

 

17 fevereiro, 2007

 

Precisamos de mais "legislação do pânico"?


 

Com todo este escarcéu promovido pela mídia em torno da mais recente barbárie em terras cariocas - ou você não ouviu falar do menino arrastado por assaltantes? - corremos o risco de ver nosso Congresso "mostrando serviço" para agradar o público sedento e aprovando novas leis penais ao gosto das Hebe Camargos e Luís Datenas da vida.

Em 1990, na esteira dos seqüestros de Abílio Diniz e outros menos abonados (ser seqüestrado era o equivalente, para uma celebridade tupiniquim, a aparecer na capa de Caras atualmente), o novíssimo governo Collor e o Congresso da época aprovaram nas coxas a Lei de Crimes Hediondos, amplamente criticada por juristas como uma excrecência, um exemplo de "legislação do pânico", como definiu o próprio ministro da justiça atual Márcio Thomaz Bastos. A Lei de Crimes Hediondos considera inafiançáveis crimes como tortura, tráfico de drogas, estupro, atentado violento ao pudor, latrocínio, genocídio e seqüestro, e impede também a "progressão da pena" - ou seja, o cara tem que cumprir a pena toda em regime fechado.

Mas os caras foram tão atabalhoados na hora de editar a lei, que esqueceram de incluir "homicídio" (a forma mais banal de crime violento) como crime hediondo. Depois do assassinato de Daniela Perez, filha da novelista Glória Perez, no final de 1992, nova onda de "comoção nacional" irracional, e lá foram nossos legisladores incluir na Lei de Crimes Hediondos os crimes de homicídio qualificado, e homicídio praticado por grupo de extermínio.

Tudo ao gosto da patuléia sedenta por "justiça", não é, Datena? Mais alguma sugestão, Dona Fátima Bernardes? É, Glória Perez, a pena de morte fica pra próxima...

No fim das contas, os juízes têm que se virar com uma lei que, levada ao pé da letra, significa que um sujeito acusado por passar um cigarro de maconha para o outro (crime de tráfico de drogas) tem que ser imediatamente encarcerado em nossas imundas masmorras medievais, não podendo responder ao processo em liberdade, e tendo que mofar pelo menos bons 3 anos da cadeia, sem direito a regime semi-aberto. O mesmo vale prum sujeito preso por "atentado violento ao pudor", crime que tanto pode ser um equivalente ao estupro (só que, digamos, por "outros meios") quanto, em suas formas mais simples, uma mera "bulinada" mal recebida (para não entrarmos no nebuloso "estupro presumido", crime praticado por qualquer adolescente de 18 anos que conseguiu levar a namoradinha de 13 pra dar "uma volta" de carro). No afã de evitar os crimes violentos, a Lei de Crimes Hediondos acaba por banalizar a violência, igualando um maconheiro a um assassino ou seqüestrador.

E, como se não bastasse, mesmo para os crimes "realmente" hediondos, esta legislação é criticada, já que a possibilidade de ressocialização de um sujeito que vai passar os próximos 30 anos sem sair da cadeia nem para trabalhar - como seria no regime semi-aberto - é zero. Sem falar que o Brasil não tem exatamente cadeia "sobrando" para deixar tanta gente presa por tanto tempo.

Como o Congresso novamente tomado pela psicose midiática nacional, o sempre cético Mino Carta já cantou a pedra em sua coluna da revista de que é dono: "Pano rápido: não podemos afirmar, à maneira do jurista alemão Ernest Hirsch, 'que as normas jurídicas têm a mirífica virtude de, quando promulgadas, sujeitar a realidade aos novos moldes'."

Para quem quiser se aprofundar, alguns links:

http://www.advogado.adv.br/artigos/2000/art11.htm - Artigo de um advogado do Pará sobre a Lei de Crimes Hediondos (8.072/90);

http://www.mundolegal.com.br/?FuseAction=Artigo_Detalhar&did=15844 - "LEI DOS CRIMES HEDIONDOS DEVE SER REVOGADA?", por Luiz Flavio Gomes, mestre em Direito Penal na USP;

http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI1412005-EI306,00.html - Matéria do site Terra com a cronologia da Lei de Crimes Hediondos.

 

 

 

 

05 fevereiro, 2007

 

 

Prefeito Gilberto Kassab agride cidadão paulistano


Esse cara vai virar uma espécie de celebridade do Youtube, um novo Jeremias Cabra-Homem.

Dia desses já se queimou com o comentário engraçadinho sobre o motel perto do buraco do metrô. Agora dá um pití desses. Se tinha um doente nessa porcaria de posto de saúde aí, deve ter tido um infarto com essa gritaria do pefelista.

Que estas imagens rodem o Brasil inteiro, e virem o símbolo da decadência do PFL, um dos partidos mais desgraçados da política brasileira (e olha que a competição é dura). E que leve junto pra cova a carreira de jovens "promessas" da picaretagem política, como Kassab, César Maia e o clã ACM.


 

 

 

Rio Body Count


 



Iniciativa do genial André Dahmer, criador dos Malvados.

 

 

 

 

01 fevereiro, 2007

 

"Votei 45 e não me arrependo * "


 

Para quem já se esqueceu:

Em 2002, José Serra disputou a Presidência da República com Lula e perdeu. E perdeu de muito. Natural, para quem estava sendo apoiado pelo então presidente FHC, o sujeito responsável pela decuplicação da dívida pública brasileira, pelo aumento do desemprego e da criminalidade a níveis sem precedentes, pelo apagão e outras "heranças malditas".

Em 2004, Serra se candidatou à prefeitura de São Paulo. Os eleitores paulistanos, talvez os piores do mundo depois dos palestinos, elegeram o careca no primeiro turno. Era bastante óbvio que Serra queria usar a Prefeitura como trampolim político, depois de levar uma traulitada de Lula. Mas Serra prometeu que não deixaria a prefeitura antes do fim do mandato. Deu sua palavra. Do que vale a palavra de José Serra? Vejam o link.

Como é do conhecimento até do mundo mineral (plagiando Mino Carta), Serra saiu da prefeitura depois de 1 ano e meio dos 4 anos do mandato para que foi eleito. Deixou na prefeitura seu vice, um sujeito chamado Paulo Kassab, do PFL. Um vice, ilustre desconhecido, e do PFL. Nada mal, pra uma cidade que já foi governada em era recente por Maluf e Celso Pitta.

Os holofotes desceram sobre Kassab nas últimas semanas, quando ele e seu ex-titular, o agora governador José Serra, tiveram que dar explicações sobre a obra do metrô que desabou e engoliu 7 almas. E Kassab logo caiu nas graças do Youtube, depois de um comentário infeliz sobre os casais que estavam num motel à beira do buraco.

(*) - uma menina no Orkut substituiu o nome dela por esta frase. Uma graça...

 

 

 

Sacudindo a poeira


 

Bom, 2007 taí e... Ah, é um saco ter que começar o ano falando do ano que terminou, do que vai começar, essas convenções de calendário arbitrárias. Pra mim, nada muda, é tudo a mesma bosta de sempre.

O Saddam foi enforcado, uma mineradora fedaputa inundou a cidade de Miraí em sua lama suja, uma cratera se abriu no meio de São Paulo, e... e daí?

Cada vez tenho menos tempo - ou seria paciência? - pra tirar alguma reflexão que preste sobre algum assunto mais ou menos relevante ou não para quem entra aqui. Aliás, quem é que entra aqui? Pelo que sei, a maioria de minhas visitas chegam pelo google, pesquisando algo e caindo no lugar errado. Para elas, este SUBMUNDO é apenas isso: um lugar errado, uma esquina virada na hora errada, um beco sem saída.

Morrer, o SUBMUNDO não vai. Embora isso também não possa garantir.

Vamos ver se a coisa melhora nos próximos capítulos.

 

 

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