12 dezembro, 2006

 

Uma mentira chamada Chile


 



Fotomontagem do site www.historie.fr

Como todos sabem, Augusto Pinochet abotoou o paletó de madeira domingo passado. Vai, como diria Alborghetti, "sentar no colo do capeta".

A grande imprensa, brasileira ou internacional, tira da gaveta as mesmas fotos e videoteipes de sempre: o palácio bombardeado com Allende dentro, dissidentes tomando porrada, fotos dos desaparecidos. Mas há sempre um "porém" favorável a Pinochet: suas reformas econômicas de cunho liberal e privatizante seriam as responsáveis pelo atual sucesso da economia chilena. O carrasco da esquerda redime-se como um herói maquiavélico do "livre mercado", fazendo afinal "os fins justificarem os meios".

Com a palavra, a grande imprensa:


"Os caminhos do livre mercado, percorridos com êxito pela economia do Chile, fazem parte da herança deixada ex-ditador Augusto Pinochet, que morreu neste domingo aos 91 anos, em Santiago.

Foram os militares que, com a assessoria de jovens discípulos da Escola de Chicago e à luz dos ensinamentos de Milton Friedman, implantaram a "economia de livre mercado", vigente até hoje como legado da cruel ditadura.

Três décadas depois, o Chile se projeta como um dos países de maior expansão na América Latina, com um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) que supera a média da região e que, en 2006, deverá flutuar entre 4,5 e 5%, segundo estimativas oficiais.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) elogiou o manejo das autoridades do Chile, um país 'imune' ao contágio dos vizinhos em crise, segundo o diretor-gerente da organização, Horst Koehler." (Texto da France Presse, reproduzido no portal G1, da Globo, no UOL e no portal Terra)


"Sob seu regime, mais de 3.000 pessoas foram mortas por sua polícia secreta. Sob seu regime, foram lançadas também as bases para a modernização e fortalecimento da economia chilena."(site "Último Segundo", da IG)


"A reforma econômica se seguiu dentro dos princípios do livre-mercado.

Companhias que haviam sido nacionalizadas voltaram às mãos dos seus antigos proprietários.

Barreiras alfandegárias foram cortadas para encorajar importações de produtos importados e houve uma ênfase renovada nas exportações.

O General Pinochet disse certa vez que seu objetivo seria "fazer do Chile não uma nação de proletários, mas uma nação de empreendedores". (da BBC Brasil)


"O ex-ditador chileno Augusto Pinochet morreu sem jamais ter sido condenado pelos crimes que cometeu em seus 17 anos de governo, mas o celebrado modelo de livre mercado que promoveu continua vivo entre seus opositores que governam o Chile.

Pouco depois do golpe militar de 11 de setembro de 1973, em que derrubou o Salvador Allende, Pinochet cercou-se de economistas, vários formados pela Universidade de Chicago, e implantou reformas profundas, que se transformaram nos pilares de uma economia que arranca sorrisos em Wall Street.

No governo Pinochet, com custos para a sociedade, o Chile abriu-se para o comércio exterior, os preços foram liberados, as contas públicas foram reguladas, a maioria das empresas estatais foi vendida e a Previdência foi privatizada, entre outras mudanças.

As reformas foram imitadas por outros países latino-americanos, como Argentina Peru e México. Há anos, a economia chilena é a que tem o menor risco de crédito em toda América Latina".(texto da Reuters/Brasil, reproduzido no portal Globo.com)



O Chile é venerado como a meca do "livre-mercado" na América Latina. É o exemplo que países como Brasil e Argentina devem seguir, mas para isso têm que ficar longe de
"caudilhos populistas" do tipo Chávez, Kirchner, Lula e Evo Morales, e acima de tudo, pagarem suas contas e seus juros de dívidas escorchantes em dia. Se é o que toda a imprensa nacional e internacional diz, devem estar certos.

É ou não é?

Não é não, diria Greg Palast, jornalista americano do "New York Times" e do britânico "The Observer". Discípulo renegado de Milton Friedman, Palast disseca o mito criado em torno da "liberalização" da economia chilena sob a mão pesada de Pinochet nas páginas do seu best-seller "A Melhor Democracia que o Dinheiro pode Comprar". Trecho:




"Em 1973, ano em que o general tomou o governo, o índice de desemprego no Chile era de 4,3%. Em 1983, após dez anos de modernização e livre mercado, o desemprego chegou a 22%. O salário real caiu cerca de 40% sob o regime militar. Em 1970, antes de Pinochet subir ao poder, 20% da população chilena vivia na pobreza. No ano em que o "presidente" Pinochet deixou o cargo, o número de destituídos havia dobrado para 40%. Que milagre!

Pinochet não destruiu a economia do Chile sozinho. Foram precisos nove anos de trabalho duro das mentes brilhantes da academia, aquela corja de 'trainees' de Milton Friedman, os Garotos de Chicago. Seguindo os feitiços teóricos, o governo aboliu o salário mínimo, cassou os direitos trabalhistas negociados pelos sindicatos, privatizou a previdência social, acabou com todos os impostos sobre renda e lucro, fez cortes drásticos no funcionalismo público, privatizou 212 estatais e 66 bancos e produziu superávit fiscal. (...)

Livre da presença opressiva da burocracia, dos impostos e dos sindicatos, o país deu um grande salto... para a bancarrota. Após nove anos de medidas econômicas ao estilo de Chicago, a economia chilena definhou e morreu. Em 1982 e 1983, o PIB caiu 19%.

Os Garotos de Chicago convenceram o governo militar que o fim das restrições aos bancos nacionais iria libertá-los para atrair o capital estrangeiro, que financiaria a expansão industrial (...). Seguindo esse conselho, Pinochet vendeu os bancos estatais - por um preço 40% abaixo do "book value", o valor contabilístico - e eles caíram rapidamente nas mãos de dois conglomerados imperiais controlados pelos especuladores Javier Vial e Manuel Cruzat.

Pinochet deixou os especuladores à vontade por muito tempo. Ele foi convencido de que o governo não deveria interferir na "lógica" do mercado. Em 1982, o jogo financeiro no Chile havia acabado. Os grupos de Vial e Cruzat ficaram inadimplentes. Indústrias foram fechadas, a previdência privada não valia mais nada, o câmbio teve uma síncope. As greves e protestos de uma população faminta e desesperada demais para temer os fuzis fizeram Pinochet mudar o rumo da economia. E ele chutou seus queridinhos experimentalistas de Chicago.

Ainda que de maneira relutante, o general ressucitou o salário mínimo e devolveu aos sindicatos a condição de negociar coletivamente os direitos trabalhistas. Pinochet, que havia dizimado o funcionalismo público, aprovou um programa para a criação de 500 mil empregos. Seria o equivalente, nos Estados Unidos, ao governo contratar 20 milhões de pessoas. (...) O governo instituiu uma lei restringindo a entrada do capital estrangeiro - um das poucas remanescentes até hoje na América do Sul.

As táticas do New Deal resgataram o Chile em 1983, mas a recuperação de longo prazo e o crescimento do país desde então são resultado - tape os ouvidos das crianças - de uma boa dose de socialismo. Para salvar a previdência social do país, Pinochet estatizou os bancos e a indústria numa escala inimaginável para o socialista Allende. O general simplesmente desapropriou à vontade, oferecendo pouco ou nada em troca.

Apesar de a maioria dessas empresas acabar voltando, após um período, para a iniciativa privada, o Estado continuou a ser proprietário da indústria de cobre.

A especialista em metais da Universidade de Montana, dra. Janet Finn, afima: 'é um absurdo retratar uma nação como exemplo do milagre da livre iniciativa quando o motor da economia continua nas mãos do governo' (...). Do cobre vêm entre 30% e 70% dos ganhos do país com exportações. Essa é a moeda forte que construiu o Chile de hoje, a produção das minas de Anaconda e Kennecott, estatizadas em 1973 - o presente póstumo de Allende a seu país."



Mesmo com as medidas "nacional-desenvolvimentistas" de Pinochet após a crise de 82-83, e os presidentes que se seguiram à ditadura - 2 deles socialistas, Ricardo Lagos e Michelle Bachelet - o Chile ostenta uma das piores distribuições de renda do mundo, superados na América do Sul somente pelo Brasil. Claro, nossos analistas parecem mais entusiasmados com as virtudes do livre mercado do "país dos empreendedores". Com pobre pedindo esmola, já estamos mais do que acostumados.



(Fazendo carinha de mau, liderando a Junta Militar que tomou o país literalmente de assalto depois do golpe. Satanás precisa se preocupar, senão tomam a rapadura dele também por aquelas bandas...)

 

 

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