17 dezembro, 2006

 

Ó dozinha da classe média...


 

Na falta de capa melhor, Veja resolveu fazer um agrado ao seu público-alvo, repetindo o discurso de vítima da chamada "classe média".



Primeiramente, é preciso chegar a um consenso sobre essa história de "classe média". No Brasil, todo mundo que não se acha pobre nem rico se diz "classe média". Como a maioria dos pobres são orgulhosos demais pra se acharem pobres ("posso não ser rico, mas aqui em casa não deixo faltar nada"), e os ricos têm vergonha de assumirem que são ricos ("rico é o meu vizinho, que tem TRÊS jatinhos. Eu só tenho um!"), então a auto-declarada classe média engloba uns 99% da população brasileira.

Matematicamente, porém, é um tanto estranho uma classe média deste tamanho no país com a pior distribuição de riqueza do mundo, exceto África. Então, se as pessoas não sabem a que classe pertencem, vamos aos números:

De acordo com o IBGE, o PIB per capita do Brasil no final de 2005 era de R$ 10.250/ano. A grosso modo, isso quer dizer que, se dividirmos todas as riquezas produzidas pela economia do País entre todos os habitantes (incluindo aí crianças, donas de casa, idosos, inválidos e até cruzeirenses), cada um leva 10 mil e pouco por ano. Ou R$ 854,17 por mês.

No Brasil, a taxa de fertilidade - média de filhos por mulher ao longo de sua vida reprodutiva - é de mais ou menos 2 filhos por mulher. Logo, uma família "média" brasileira seria composta de pai (nem sempre presente, mas enfim), mãe e duas crianças.

Se o pai ganha R$ 4 mil por mês e a mãe ganha R$ 2 mil, a renda familiar per capita (contando as 2 crianças, que não trabalham mas consomem) será de R$ 1.500,00/mês. Quase o dobro da renda per capita média. Mas esta família, muito provavelmente, ainda se considera "classe média". Dirá o pai, numa entrevista à Veja: "R$ 6 mil por mês é o mínimo para dar uma vida decente à minha família". Dirá isso com um celular que abre, fecha e tira fotos (preço: R$ 1.000,00) no bolso de seu terno Armani (R$ 1.500,00). Acha que está no sufoco, porque está pagando, na fatura do cartão de crédito, as roupas caríssimas da mulher e o tênis Nike Shox do pirralho (R$ 600,00).

O cara que está procurando a janta na lixeira do prédio dele não vai ser entrevistado pela Veja. Mas é possível que também se ache um integrante da "classe média", afinal, veja você, mora no Belvedere! (num lote vago, sob uma cobertura de papelão, mas é no Belvedere).

Os tais "ímpetos de riqueza e progresso" da classe média se resumem a acumular riqueza, comprar celulares e carros importados ("não dá pra viver decentemente só com UMA Mercedez!"), e seguir tratando a empregada de casa como cachorro. Mal posso esperar pelo triunfo da classe média! Aí, sim, o Brasil vai pra frente!

 

 

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