18 dezembro, 2006

 

Um filme chamado...


 



Este aí é o concorrente libanês ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira do ano que vem.

Talvez o título não tenha ficado muito claro. Sim, é um "b", seguido por um "o", um "s", um "t" e no final, um "a".

No site do filme dá pra ver mais claramente.

Esse filme vai concorrer ainda para ser um dos 5 finalistas que vão aparecer no telão, na grande noite do jabaculê americano. Entre outros concorrentes, está o brasileiro "Dois Filhos do Francisco" - sim, este é o representante brasileiro.

Imagino a saia justa do apresentador no Brasil, caso o azarão libanês seja o premiado: "E o Oscar vai para... o filme libanês de nome impronunciável! Parabéns!"

Já não bastava a seleção da Costa Rica arrumar um goleiro chamado José PORRAS, e os libaneses me vêem com essa. Não há Rede Globo que agüente...

 

 

 

 

17 dezembro, 2006

 

Ó dozinha da classe média...


 

Na falta de capa melhor, Veja resolveu fazer um agrado ao seu público-alvo, repetindo o discurso de vítima da chamada "classe média".



Primeiramente, é preciso chegar a um consenso sobre essa história de "classe média". No Brasil, todo mundo que não se acha pobre nem rico se diz "classe média". Como a maioria dos pobres são orgulhosos demais pra se acharem pobres ("posso não ser rico, mas aqui em casa não deixo faltar nada"), e os ricos têm vergonha de assumirem que são ricos ("rico é o meu vizinho, que tem TRÊS jatinhos. Eu só tenho um!"), então a auto-declarada classe média engloba uns 99% da população brasileira.

Matematicamente, porém, é um tanto estranho uma classe média deste tamanho no país com a pior distribuição de riqueza do mundo, exceto África. Então, se as pessoas não sabem a que classe pertencem, vamos aos números:

De acordo com o IBGE, o PIB per capita do Brasil no final de 2005 era de R$ 10.250/ano. A grosso modo, isso quer dizer que, se dividirmos todas as riquezas produzidas pela economia do País entre todos os habitantes (incluindo aí crianças, donas de casa, idosos, inválidos e até cruzeirenses), cada um leva 10 mil e pouco por ano. Ou R$ 854,17 por mês.

No Brasil, a taxa de fertilidade - média de filhos por mulher ao longo de sua vida reprodutiva - é de mais ou menos 2 filhos por mulher. Logo, uma família "média" brasileira seria composta de pai (nem sempre presente, mas enfim), mãe e duas crianças.

Se o pai ganha R$ 4 mil por mês e a mãe ganha R$ 2 mil, a renda familiar per capita (contando as 2 crianças, que não trabalham mas consomem) será de R$ 1.500,00/mês. Quase o dobro da renda per capita média. Mas esta família, muito provavelmente, ainda se considera "classe média". Dirá o pai, numa entrevista à Veja: "R$ 6 mil por mês é o mínimo para dar uma vida decente à minha família". Dirá isso com um celular que abre, fecha e tira fotos (preço: R$ 1.000,00) no bolso de seu terno Armani (R$ 1.500,00). Acha que está no sufoco, porque está pagando, na fatura do cartão de crédito, as roupas caríssimas da mulher e o tênis Nike Shox do pirralho (R$ 600,00).

O cara que está procurando a janta na lixeira do prédio dele não vai ser entrevistado pela Veja. Mas é possível que também se ache um integrante da "classe média", afinal, veja você, mora no Belvedere! (num lote vago, sob uma cobertura de papelão, mas é no Belvedere).

Os tais "ímpetos de riqueza e progresso" da classe média se resumem a acumular riqueza, comprar celulares e carros importados ("não dá pra viver decentemente só com UMA Mercedez!"), e seguir tratando a empregada de casa como cachorro. Mal posso esperar pelo triunfo da classe média! Aí, sim, o Brasil vai pra frente!

 

 

 

 

16 dezembro, 2006

 

Wikipedia e Unwikipedia


 

Você já deve ter ouvido falar na Wikipedia, uma das mais fantásticas invenções da internet moderna (ao lado do Youtube, do Orkut - apesar dos pesares, e daqueles programas para telefonar de graça). A Wikipedia é uma enciclopédia editada e mantida, quase que totalmente, por usuários anônimos. Um de seus grandes trunfos (e até lema) é que qualquer usuário pode editá-la, acrescentando seus conhecimento e corrigindo as beteiras dos outros. Já a "Veja" fez uma reportagem sobre o Wikipedia e achou isso um defeito. "Como assim, informação que qualquer um edita?" Para "Veja", só é confiável a edição que os Civitas aprovam.

Mas ainda mais sensacional que a Wikipedia é a sua nêmesis, a Unwikipedia, a "Enciclopédia Livre de Conteúdo". Também na Unwikipedia (cuja versão em português é batizada de "Desciclopédia"), todos são livres para editar, mas com um porém: todas as "informações" devem ser falsas. Só é permitido desinformar na Desciclopédia.

Ao contrário da Wikipedia em português, que não é levada muito a sério e é constantemente vandalizada por adolescentes brasileiros idiotas (como no Orkut), a Desciclopédia, apesar de pequena, tem bastante potencial. Ali reside a nata dos humoristas anônimos da internet. Claro, isso até a "ralé" descobrir para esculhambar com a Desciclopédia também.

Quando seus netos estiverem copiando os trabalhos de escola diretamente da Wikipedia, você poderá dizer: "eu me lembro quando a Wikipedia tinha só 1 milhão de artigos, eu a acessava com meu computador de válvulas movido a querosene". Esclerose e nostalgia sempre andam juntas...

Links:

Portal da Wikipedia com todos os idiomas disponíveis

Portal do Unwikipedia

A Desciclopédia, em português

 

 

 

Morre Clay Regazzoni


 



Clay Regazzoni e sua Ferrari em Long Beach, pintura de Nicholas Watts

O ex-piloto de Fórmula 1 suiço Clay Regazzoni morreu num acidente de carro nesta sexta-feira, próximo a Parma (Itália), aos 67 anos.

Correndo pela Ferrari, Regazzoni foi um dos grandes rivais de Émerson Fittipaldi nos anos 70, disputando com o brasileiro o título de pilotos de 1974. Os dois chegaram empatados na última etapa, em Watkins Glen (Estados Unidos), onde Émerson bateu o suiço ao chegar em 4º lugar - Regazzoni foi apenas o 11º.

Em 1980, os dois já estavam no ocaso de suas carreiras, Fittipaldi amargando sucessivas frustrações em sua Copersucar, e Regazzoni lutando em uma fraca Ensign. Na corrida de Long Beach, Regazzoni estava logo à frente de Émerson, defendendo uma excelente 4ª posição. Na freada para um hairpin, o pedal do freio do carro de Regazzoni se quebrou, e o suiço passou reto. Émerson contornou o hairpin e, mesmo com o motor do carro berrando às suas costas, conseguiu ouvir o terrível baque do rival se chocando contra a barreira de proteção. O barulho foi tão forte que Émerson teve a certeza que Regazzoni havia morrido, mas teve o sangue frio de seguir em frente e terminar a prova - que não chegou a ser interrompida - na terceira posição. Aquele foi o último pódio de Émerson Fittipaldi, a primeira vitória de Nélson Piquet, e a única vez em que os dois se encontraram no pódio. Só após a corrida os pilotos tiveram maiores informações sobre Regazzoni: ele sobrevivera, mas sofreu uma lesão na coluna que o deixaria paralítico da cintura para baixo.

Após o acidente, o suiço participou de campanhas voltadas para deficientes físicos, e foi comentarista ocasional de Fórmula 1 para as TVs italianas e suíças.

 

 

 

 

13 dezembro, 2006

 

Menino Velho


 



Tudo bem que a concorrência tem sido fraca, mas esse aí foi o melhor filme que eu vi neste ano.

Assistam. Nem que seja só pela cena em que o sujeito come um polvo inteiro numa bocada só. Vivo.

 

 

 

 

12 dezembro, 2006

 

Uma mentira chamada Chile


 



Fotomontagem do site www.historie.fr

Como todos sabem, Augusto Pinochet abotoou o paletó de madeira domingo passado. Vai, como diria Alborghetti, "sentar no colo do capeta".

A grande imprensa, brasileira ou internacional, tira da gaveta as mesmas fotos e videoteipes de sempre: o palácio bombardeado com Allende dentro, dissidentes tomando porrada, fotos dos desaparecidos. Mas há sempre um "porém" favorável a Pinochet: suas reformas econômicas de cunho liberal e privatizante seriam as responsáveis pelo atual sucesso da economia chilena. O carrasco da esquerda redime-se como um herói maquiavélico do "livre mercado", fazendo afinal "os fins justificarem os meios".

Com a palavra, a grande imprensa:


"Os caminhos do livre mercado, percorridos com êxito pela economia do Chile, fazem parte da herança deixada ex-ditador Augusto Pinochet, que morreu neste domingo aos 91 anos, em Santiago.

Foram os militares que, com a assessoria de jovens discípulos da Escola de Chicago e à luz dos ensinamentos de Milton Friedman, implantaram a "economia de livre mercado", vigente até hoje como legado da cruel ditadura.

Três décadas depois, o Chile se projeta como um dos países de maior expansão na América Latina, com um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) que supera a média da região e que, en 2006, deverá flutuar entre 4,5 e 5%, segundo estimativas oficiais.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) elogiou o manejo das autoridades do Chile, um país 'imune' ao contágio dos vizinhos em crise, segundo o diretor-gerente da organização, Horst Koehler." (Texto da France Presse, reproduzido no portal G1, da Globo, no UOL e no portal Terra)


"Sob seu regime, mais de 3.000 pessoas foram mortas por sua polícia secreta. Sob seu regime, foram lançadas também as bases para a modernização e fortalecimento da economia chilena."(site "Último Segundo", da IG)


"A reforma econômica se seguiu dentro dos princípios do livre-mercado.

Companhias que haviam sido nacionalizadas voltaram às mãos dos seus antigos proprietários.

Barreiras alfandegárias foram cortadas para encorajar importações de produtos importados e houve uma ênfase renovada nas exportações.

O General Pinochet disse certa vez que seu objetivo seria "fazer do Chile não uma nação de proletários, mas uma nação de empreendedores". (da BBC Brasil)


"O ex-ditador chileno Augusto Pinochet morreu sem jamais ter sido condenado pelos crimes que cometeu em seus 17 anos de governo, mas o celebrado modelo de livre mercado que promoveu continua vivo entre seus opositores que governam o Chile.

Pouco depois do golpe militar de 11 de setembro de 1973, em que derrubou o Salvador Allende, Pinochet cercou-se de economistas, vários formados pela Universidade de Chicago, e implantou reformas profundas, que se transformaram nos pilares de uma economia que arranca sorrisos em Wall Street.

No governo Pinochet, com custos para a sociedade, o Chile abriu-se para o comércio exterior, os preços foram liberados, as contas públicas foram reguladas, a maioria das empresas estatais foi vendida e a Previdência foi privatizada, entre outras mudanças.

As reformas foram imitadas por outros países latino-americanos, como Argentina Peru e México. Há anos, a economia chilena é a que tem o menor risco de crédito em toda América Latina".(texto da Reuters/Brasil, reproduzido no portal Globo.com)



O Chile é venerado como a meca do "livre-mercado" na América Latina. É o exemplo que países como Brasil e Argentina devem seguir, mas para isso têm que ficar longe de
"caudilhos populistas" do tipo Chávez, Kirchner, Lula e Evo Morales, e acima de tudo, pagarem suas contas e seus juros de dívidas escorchantes em dia. Se é o que toda a imprensa nacional e internacional diz, devem estar certos.

É ou não é?

Não é não, diria Greg Palast, jornalista americano do "New York Times" e do britânico "The Observer". Discípulo renegado de Milton Friedman, Palast disseca o mito criado em torno da "liberalização" da economia chilena sob a mão pesada de Pinochet nas páginas do seu best-seller "A Melhor Democracia que o Dinheiro pode Comprar". Trecho:




"Em 1973, ano em que o general tomou o governo, o índice de desemprego no Chile era de 4,3%. Em 1983, após dez anos de modernização e livre mercado, o desemprego chegou a 22%. O salário real caiu cerca de 40% sob o regime militar. Em 1970, antes de Pinochet subir ao poder, 20% da população chilena vivia na pobreza. No ano em que o "presidente" Pinochet deixou o cargo, o número de destituídos havia dobrado para 40%. Que milagre!

Pinochet não destruiu a economia do Chile sozinho. Foram precisos nove anos de trabalho duro das mentes brilhantes da academia, aquela corja de 'trainees' de Milton Friedman, os Garotos de Chicago. Seguindo os feitiços teóricos, o governo aboliu o salário mínimo, cassou os direitos trabalhistas negociados pelos sindicatos, privatizou a previdência social, acabou com todos os impostos sobre renda e lucro, fez cortes drásticos no funcionalismo público, privatizou 212 estatais e 66 bancos e produziu superávit fiscal. (...)

Livre da presença opressiva da burocracia, dos impostos e dos sindicatos, o país deu um grande salto... para a bancarrota. Após nove anos de medidas econômicas ao estilo de Chicago, a economia chilena definhou e morreu. Em 1982 e 1983, o PIB caiu 19%.

Os Garotos de Chicago convenceram o governo militar que o fim das restrições aos bancos nacionais iria libertá-los para atrair o capital estrangeiro, que financiaria a expansão industrial (...). Seguindo esse conselho, Pinochet vendeu os bancos estatais - por um preço 40% abaixo do "book value", o valor contabilístico - e eles caíram rapidamente nas mãos de dois conglomerados imperiais controlados pelos especuladores Javier Vial e Manuel Cruzat.

Pinochet deixou os especuladores à vontade por muito tempo. Ele foi convencido de que o governo não deveria interferir na "lógica" do mercado. Em 1982, o jogo financeiro no Chile havia acabado. Os grupos de Vial e Cruzat ficaram inadimplentes. Indústrias foram fechadas, a previdência privada não valia mais nada, o câmbio teve uma síncope. As greves e protestos de uma população faminta e desesperada demais para temer os fuzis fizeram Pinochet mudar o rumo da economia. E ele chutou seus queridinhos experimentalistas de Chicago.

Ainda que de maneira relutante, o general ressucitou o salário mínimo e devolveu aos sindicatos a condição de negociar coletivamente os direitos trabalhistas. Pinochet, que havia dizimado o funcionalismo público, aprovou um programa para a criação de 500 mil empregos. Seria o equivalente, nos Estados Unidos, ao governo contratar 20 milhões de pessoas. (...) O governo instituiu uma lei restringindo a entrada do capital estrangeiro - um das poucas remanescentes até hoje na América do Sul.

As táticas do New Deal resgataram o Chile em 1983, mas a recuperação de longo prazo e o crescimento do país desde então são resultado - tape os ouvidos das crianças - de uma boa dose de socialismo. Para salvar a previdência social do país, Pinochet estatizou os bancos e a indústria numa escala inimaginável para o socialista Allende. O general simplesmente desapropriou à vontade, oferecendo pouco ou nada em troca.

Apesar de a maioria dessas empresas acabar voltando, após um período, para a iniciativa privada, o Estado continuou a ser proprietário da indústria de cobre.

A especialista em metais da Universidade de Montana, dra. Janet Finn, afima: 'é um absurdo retratar uma nação como exemplo do milagre da livre iniciativa quando o motor da economia continua nas mãos do governo' (...). Do cobre vêm entre 30% e 70% dos ganhos do país com exportações. Essa é a moeda forte que construiu o Chile de hoje, a produção das minas de Anaconda e Kennecott, estatizadas em 1973 - o presente póstumo de Allende a seu país."



Mesmo com as medidas "nacional-desenvolvimentistas" de Pinochet após a crise de 82-83, e os presidentes que se seguiram à ditadura - 2 deles socialistas, Ricardo Lagos e Michelle Bachelet - o Chile ostenta uma das piores distribuições de renda do mundo, superados na América do Sul somente pelo Brasil. Claro, nossos analistas parecem mais entusiasmados com as virtudes do livre mercado do "país dos empreendedores". Com pobre pedindo esmola, já estamos mais do que acostumados.



(Fazendo carinha de mau, liderando a Junta Militar que tomou o país literalmente de assalto depois do golpe. Satanás precisa se preocupar, senão tomam a rapadura dele também por aquelas bandas...)

 

 

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