06 outubro, 2006

 

A sutil diferença entre um bandido e um malaco


 

Como sempre faço de vez em quando, resolvi dar uma caminhada, mais por falta do que fazer do que por cuidado com minhas coronárias gradualmente entupidas com gordura de bacon e biscoito recheado.

Na subida da Avenida José Cândido, um outro caminhante resolveu puxar conversa. Perguntou o que eu fazia, disse que "tinha o vírus" e estava precisando comprar remédio. Morro acima, disse também que estava armado, que era foragido da Justiça, e me convidou a ir num caixa automático pra tirar uma grana. Falou para eu não correr nem fazer nenhuma bobagem, afinal, "pra quê desperdiçar sua vida por tão pouco?"

Faltava um incisivo central na boca do sujeito, que trajava uma camisa do "Racionais MC's" preta maior que seu número, uma pochete - excelente para esconder celulares e jóias roubadas - e um óculos escuro. Tentava parecer amistoso, ao mesmo tempo em que ameaçava enfiar uma azeitona na minha testa.

Expliquei pra ele que não poderia sacar dinheiro, porque não tinha um tostão na minha conta (não estava mentindo). Ele perguntou sobre o celular no meu bolso, mas o convenci de que não valia a pena. Por fim, pediu minha aliança de noivado. A essa altura, obviamente, já sabia que tudo passava de um blefe. Falei que não poderia dar a aliança. Tinha valor sentimental.

Ele então se despediu, com um aperto de mão (!). Pediu pra eu "não comentar com ninguém". Resolvi não interromper minha caminhada por tão pouco. Na volta, achei um posto policial e dei a descrição do meliante. Possivelmente não vai dar em nada, mas pelo menos fico com a consciência limpa.

Não é a primeira vez que isso me acontece. No Centro, dois caras me pararam uma vez com uma conversa de "acabei de fugir da cadeia, me vê uma grana aí, xará". Acabaram me levando uns 20 contos. No dia seguinte (sem sacanagem), um cara veio com a mesma conversa, e eu neguei. Era um só, o dia estava claro, e ele francamente não me convenceu.

Em Valadares, já há vários anos, um pateta numa bicicleta enfiou a mão debaixo da camisa e veio pra cima de mim: "me vê esse relógio aí senão te dou um tiro!" Olhei estupefato e ele: "não vai dá não? Ó, eu vou contar até três! Um... dois... Vai me dá o relógio ou não?" Depois ele disse que estava só bricando.

Entre o mendingo na esquina expondo sua miséria a troco de algumas moedas, até o bandido que aborda o motorista no sinal enfiando um revólver na sua têmpora, há toda uma zona cinzenta de marginalizados que podemos classificar como "malacos". O malaco não se satisfaz com a simples mendicância, mas também não quer se arriscar com a incerta carreira de assaltante "per se". Assim, capitaliza em cima da crescente paranóia dos "classes médias", pedindo com tom de falsa ameaça. Passam do "uma ajuda, por favor" para um "me vê um trocado aí, senão..." Mas se você não demonstrar medo e não der, o malaco simplesmente vai atrás de outra vítima, alguém que prefira não arriscar.

Viver nas médias e grandes cidades brasileiras implica em, cedo ou tarde, esbarrar com um malaco numa esquina, e jogar pôquer com sua vida, em troca do seu celular, relógio ou dinheiro. Sempre dizem pra "não reagir", mas é do nosso instinto (do meu, pelo menos) não se render por muito pouco. Às vezes, o malaco pode estar a armado e cumprir sua ameaça. Mas viver é correr riscos.

 

 

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