03 setembro, 2006

 

Campanha de Resgate do Fliperama


 



Quando eu era criança pequena lá em Barbacena, quer dizer, Arcos, meu buteco preferido era um quase em frente à Igreja Matriz, na chamada "Praça da Matriz". Era bem longe de onde eu morava (Bairro Brasília, perto do "Cipó-Pau", hoje chamado de "Cipó-PUC" por sua vizinhança com a nova universidade), principalmente se levarmos em consideração que uma criança precisa dar uns 2 ou 3 passos para andar a mesma distância que um adulto com um passo. Íamos eu e meu irmão, às vezes acompanhados da mãe, mas depois de um tempo íamos sozinhos.

Calma, não éramos alcólatras-mirins não. Íamos atrás de guloseimas baratas e... FLIPERAMA!!!

O que havia de mais semelhante a um Fliperama em Arcos nos anos 80 era esse buteco perto da Matriz. Acho que haviam umas 3 máquinas lá, mais 2 pinballs. Os jogos disponíveis mudavam às vezes, mas lembro-me particularmente de um de corrida (o "Grand Prix", mais conhecido na versão "cabine", mas lá no boteco era jogado em pé mesmo) e o dificílimo "He-Man", onde eu não passava da segunda fase. Outra coisa que me chamava a atenção no buteco era a tabela de preços, com letras de plástico amarelas em um fundo preto, acompanhada ao lado de uma tabela semelhante, mas contendo apenas os nomes dos "mau pagadores" que haviam passado cheque sem fundo no dono.

Não é à tóa que as raras idas aos shoppings de BH eram aguardadas com grande ansiedade: os fliperamas do BH Shopping nos deixavam embriagados de excitação. Ficávamos elétricos em meio a tantas opções, e acabávamos gastando milhares e milhares de cruzeiros (ou o equivalente a 5 reais) em questão de minutos.

Depois que nos mudamos para Valadares, e já mais crescidinhos, passamos a freqüentar os fliperamas locais - sendo nosso favorito o da Rua Barão do Rio Branco - bem superiores ao buteco de Arcos e que deixavam pouco a dever aos de Belo Horizonte. Estes fliperamas eram uma espécie de território anárquico juvenil, em que quase tudo era permitido, inclusive xingar, dar joelhadas na máquina quando engolia a ficha (sempre funcionava), roubar o boné do cara que tava jogando e arrotar alto - peidar já era demais. A única autoridade adulta no lugar era uma muié que ficava atrás de uma mesa vendendo fichas e contando as horas para "encerrar o expediente". Naquela época acho que não existia "juizado de menores" para nos proibir de freqüentar fliperamas desacompanhados dos pais ou mesmo vestindo uniforme de escola. O fliperama da Barão me ensinou cerca de 75% dos palavrões que conheço hoje, e me deu o mau hábito de chamar a Chun-Li do Street Fighter de "pirainha".

Pois bem. Hoje o meninão de 26 aninhos aqui ainda freqüenta esporadicamente os fliperamas dos shoppings de BH. Só que não existem mais fliperamas "per se" nos shoppings, e sim um emaranhado de lan-house com parque de diversões com piscina de bolinhas em que há, também, máquinas de fliperama. Normalmente, esses "emaranhados" pertencem a uma cadeia tipo "Hot-Zone", e as velhas fichas perderam lugar para cartões magnéticos retornáveis - até um tempo atrás, estes cartões não eram retornáveis, custavam 1 real e só podiam ser utilizados naquela loja determinada, mas felizmente acabaram com essa sacanagem.

Bem, tudo isso seria perfeitamente tolerável. Já não é de hoje que os fliperamas foram "invadidos" por outras formas de diversão. Mesmo no fliperama da Barão, em Valadares, já haviam uns Super-Nintendos e Mega-Drives de aluguel convivendo em harmonia com os "arcades". Os brinquedos para crianças também não chegam a incomodar. E a nostalgia das fichas diminui à medida em que nos lembramos de quando a máquina comia a ficha e o dono do lugar se recusava a acreditar na sua história.

Mas o que torna minhas idas ao Fliperama hoje um suplício é o maldito KARAOKÊ!



Se os karaokês de Fliperama estivessem sempre acompanhados de uma loiraça bunduda dessas, ninguém reclamava. O problema é que, via de regra, há sempre um adolescente barango cantando o último sucesso do Sowetto, Kelly Key ou o funk da moda para o andar inteiro do shopping ouvir. Como o karaokê é sempre disputado, os donos do lugar sempre diminuem os volumes das máquinas de fliperama, mas aumentam o do maldito karaokê, para que o desinfeliz possa ouvir sua própria voz.

No passado, você entrava no fliperama e escutava o "raiúguet" do Street Fighter, barulhinhos de porrada do Final Fight, o motor do carrinho do jogo de corrida, tudo compondo uma orquestra de sons digitalizados acompanhando os ruídos dos botões apertados com fúria e os xingamentos dos jogadores. Hoje, tudo o que você escuta ao entrar no fliperama é um desafinado cantando "Eu não sei paráááááá de te olháááá... Não sei pa-RÁÁÁÁÁ..." (o grito é tão forte que as janelas tremem, as crianças começam a chorar com dor de ouvido).

Não tenho nada contra Videokês. Já até cantei muito neles, devo admitir. Mas tem que haver um ambiente apopriado para eles, de preferência bem longe, num bunker com isolamento acústico à prova de catacombes nucleares. Não no meu, no seu, no nosso fliperama!

 

 

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