28 fevereiro, 2005

 

Toda razão aos EUA!


 

Pelo menos uma vez na vida sou forçado a concordar com os comedores-de-ovo-com-bacon-no-café-da-manhã. O Departamento de Estado americano botou a boca no trombone para denunciar as mazelas dos primo pobres aqui. Trecho (matéria da filial brasileira da AOL):

"O Brasil é um país onde a polícia prende arbitrariamente, executa pessoas 'indesejáveis', a Justiça não é confiável, persiste a violência contra a mulher e o Estado falha em proteger os indígenas. Esse é o retrato do País segundo o relatório do Departamento de Estado dos EUA sobre direitos humanos divulgado nesta segunda-feira. De acordo com o documento, as polícias Civil e Militar cometem assassinatos por uso de força excessiva e também estão envolvidas na execução liderança dos trabalhadores e ativistas dos direitos humanos."

Não tiraria uma vírgula. Só mesmo os hipócritas ufanistas, que não conseguem se olhar no espelho, vão achar que o Departamento de Estado não tem razão.

Se os primos ricos têm qualquer envergadura moral para denunciar violações de direitos humanos pelo mundo afora já é outra conversa. Não importa se é "o sujo falando do mal-lavado": a mensagem precede o mensageiro.

 

 

 

De graça, até injeção na testa


 



Tava folheando esse livro aí na Ouvidor quando reparei a etiqueta do preço: 10,00. Morar em país de analfabetos dá nisso: falta assunto na mesa do boteco, mas compra-se livros pelo seu peso em papel. Levei na hora.

O Michael Dobbs é um jornalista norte-irlandês (ou "ulsterman", como dizem) que compensa uma acentuada tendência anti-comunista com sua excelente narrativa. Seu livro aborda o período entre 1980 e 1991, com todas as fascinantes transformações ocorridas "do lado de lá" do mundo. Trabalhando para jornalões como Washington Post e Guardian de Londres, é de se esperar que Dobbs às vezes dê seus pitacos ideológicos aqui e ali, escorregando na armadilha de tratar "liberdade individual" como "liberdade de mercado".

Mas não dá pra culpá-lo por isso: não há (ainda) um consenso histórico sobre a tragédia do "socialismo real". A esquerda tenta pôr panos quentes e jogar a culpa toda em cima dos russos, um povo historicamente "bárbaro" e "oriental", portanto incapaz de pôr em prática as teorias do véio barbudo. Do outro lado, a direita tenta aproveitar o máximo possível do fracasso retumbante para jogar caca na esquerda: seu mote é "a queda do Muro provou que estávamos certos".

De toda forma, o livro vale a pena. Talvez o capítulo mais fascinante seja o da queda do Nicolae (esse nome não dá sorte...) Ceausescu, na Romênia. Em questão de 4 dias, o até então inabalável ditador foi deposto, preso, julgado por um tribunal tosco e fuzilado junto com a muié. Já os tiranos de nosso pedaço do mundo viram nome de rodovias e ruas e morrem dormindo, de velhice. Nem o Pinochet conseguem prender.

Feliz do povo que se vinga de seus algozes.

(A propósito: o nome do livro em português é "A Queda do Império Soviético". Talvez tiraram o "Down with Big Brother" por medo de que desavisados comprassem o livro por causa de um programa de TV por aí...)

 

 

 

 

26 fevereiro, 2005

 

Beagá de outros tempos


 

Outro dia estava revirando umas velharias no meu trabalho e achei duas fotos, grandes, tiradas na Rua Rio de Janeiro, em frente à Agência do Banco do Brasil, aqui em Belo Horizonte (MG). A fachada era ainda em mármore, branca, e ao invés da vidraça, havia uma grande porta metálica, com um sóbrio letreiro cinza. Um Gol estacionado ao lado de dois Fuscas em frente ao prédio servia de pista para a data aproximada das fotos: 1979 pra cá. Mais provavelmente uns 80 e poucos.

Essas "relíquias" chamaram a atenção dos estagiários que trabalham comigo. Não conseguiam entender como a Rua Rio de Janeiro podia ser tão organizada e limpa, sem camelôs, sem mendigos, sem gente apressada. Uma senhora carregando uma enorme bolsa acompanhava um menino (talvez seu neto, ou sobrinho) de uns 5 anos. Uma colega reparou que, hoje em dia, uma senhora como aquela não ia dar mole no centrão de BH com uma bolsa daquele tamanho, verdadeiro chamariz de pivetes.

Já a criança vestia um uniforme escolar (outra pista: não era domingo ou feriado, mas um dia de semana qualquer) e estava fascinado com a estátua negra que enfeita a fachada do Banco. Pensei com uma certa tristeza que aquele menino deve ter hoje a minha idade. E a chance é boa daquela senhora já ter falecido.

Sophia, este é o nome da estátua. Apenas ela continua no mesmo lugar. O tempo é mesmo foda.

 

 

 

 

22 fevereiro, 2005

 

Agro-banditismo


 

Cadê os machos da UDR e da CNA para denunciar os assassinatos cometidos pelos seus colegas fazendeiros no Pará, vitimando a tal freira americana mas também, longe dos holofotes, outras dúzias de ativistas e militantes, verdes e vermelhos?

Quero ver o dia em que alguém do MST fuzilar uma septuagenária num grotão por aí: a Veja e o Estadão vão pedir a cabeça do Lula. Nossa classe média, tão estúpida e ávida a reações exageradas, vai mandar um apelo ao Sr. Bush, para que "nos defenda dos terroristas".

Eis a lógica do Brasil sem lei: faço porque quero, quero porque posso. Dizem que os verdadeiros mandantes já voaram do País em seus jatinhos particulares, enquanto a Polícia Civil do Pará tenta se aproveitar da história para jogar lama no PT local.

Violentos e "radicais" são os outros. Pois sim.

 

 

 

Baixo calão para o baixo clero


 



Me desinteressei por essa eleição na Câmara depois que li, numa revista, que a Casa emprega 17 mil pessoas, a maior parte "assessores" nomeados pelos 513 deputados (cada deputado pode nomear até 25 aspones para seu gabinete). O asco roubou qualquer interesse meu. Mesmo fugindo dos denuncismos fáceis tipo "deputado não faz nada" (faz sim, e legislar é bem mais complicado que se pensa) ou "se todos os assessores forem trabalhar, não tem espaço na Câmara" (e quem disse que um assessor parlamentar não pode, por exemplo, redigir um projeto de lei em casa?), dezessete mil ainda é um número indecentemente alto. Tem mais gente "trabalhando" na Câmara do que na Embraer, por exemplo. Para se ter uma idéia, o Banco do Brasil, que tem agência espalhada por todo fiofó de mundo neste País, emprega umas 70 mil pessoas.

Qualquer um que se candidate a dirigir aquela merda sem ter como primeira proposição diminuir, ao menos pela metade, a gastança de R$ 2,3 bilhões/ano, só merece o desprezo do eleitorado. Esse Severino, pelo contrário, propõe aumentos para a turma, amealhando o apoio de "300 picaretas com anel de dotô" (quem foi que disse isso mesmo?), o tal "baixo clero", escondidos covardemente sob o anonimato do voto secreto. Só mesmo um País morto como o nosso para deixar uma porra dessas acontecer.

Severino Cavalcanti é o retrato acabado de nosso Parlamento farsesco e circense, alicerçado sobre partidos fictícios, um sistema de voto proporcional que foge à percepção do eleitor médio - o voto num sindicalista do PT ajuda a eleger um pastor evangélico do PL, o voto num empresário do PFL ajuda a eleger um coronel escravocrata, do PFL - e uma legislação onde Estados pequenos e atrasados como Piauí, Mato Grosso ou Roraima são desproporcionalmente representados. No baixo clero, não há qualquer compromisso ideológico a não ser com os próprios bolsos, com uma verbazinha aqui e ali para garantir a reeleição junto ao curral eleitoral.

Num círculo vicioso, nossa frágil democracia permite a eleição de Severino Cavalcanti, que por sua vez representa mais um golpe na mesma frágil democracia. Continuamos sendo o País de um Severino, não de todos os severinos. Pelo menos agora, a Câmara tem o representante que merece.

 

 

 

 

20 fevereiro, 2005

 

Arautos do Apocalipse


 

Nada me tira a impressão de que nosso mundo está em queda livre rumo à franca decadência. Quer dizer, talvez tenha sido sempre uma bosta, mas temo que estejamos hoje envergonhando nossos medíocres antepassados. Ou será que:

- a novela das oito sempre foi feita sob medida para debilóides?

- o rock nacional sempre foi a mesma porcaria, macaqueando modismos britânicos e americanos?

- o futebol brasileiro sempre foi nivelado por baixo, com os melhorzinhos sendo levados ao Olimpo como "o novo Pelé" até serem vendidos pra Europa ou simplesmente esquecidos?

- a política brasileira sempre foi o mesmo teatrinho de "oposição versus situação", sendo que o que há na verdade é um pacto onde todos (os políticos) se enriquecem às nossas custas?

- os filmes "cabeça" sempre foram tão descartáveis como os Stallones da vida, apesar do verniz intelectualóide de quem leu orelha de livro?

- as igrejas (todas) sempre tiveram na estupidez humana a linha mestra para seus dogmas e preconceitos, e sempre tiveram o vil metal como seu único princípio inabalável?

Das duas uma: ou o mundo está mais besta, ou fui eu que fiquei mais esperto. Como a segunda hipótese é pouco provável, é melhor irem se preparando.

 

 

 

 

14 fevereiro, 2005

 

Depois da folia...


 

Como tudo neste País, o SUBMUNDO DE NIKOLAS só engrena mesmo depois do Carnaval. Acostumem-se.

Isso, é claro, se as condições climáticas / internéticas / pessoais forem propícias. Estão querendo me obrigar a trabalhar 10 horas por dia. DEZ! Mais uma de almoço e outra para ir e voltar de busão, são doze horas, ou metade do meu dia, sugados para o lucro estratosférico de instituição financeira.

Mundo cruel. Ainda bem que tem uma justiça trabalhista no fim do túnel.

 

 

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