04 julho, 2009

 

El nombre del blog es MUERTO!


 

Como deu pra notar nos últimos 2 anos, este blog está oficialmente defunto.

Ultimamente tenho tido pouquíssimo tempo para escrever, afinal as obrigações maritais e Winning Eleven tomaram todo o meu tempo livre.

Além do quê ficava sempre devendo uma reforma visual pra isso aqui que nunca saía, e a reformulação serviria como desculpa esfarrapada para este "hiato" de criação.

No lugar dele, tenho agora um Twitter.

Quando precisar escrever algo com mais de 140 caracteres, voltarei a dar as caras por aí.

Até lá, tenha um bom descanso, SUBMUNDO!

 

 

 

 

27 fevereiro, 2007

 

Será que estou me transformando num monstro?


 

William Bonner e Fátima Bernardes recitam as manchetes do JN. Minha reação:

"Menina de 3 anos é baleada e morta em assalto em São Paulo."

Zzzz...

"Menino de 4 anos é morto por bala perdida enquanto brincava numa favela em Santo André."

Zzzz...

"Franceses que mantinham ONG para crianças carentes são assassinados no Rio."

Zzzz...

"Carro bomba explode no Iraque e mata oitocentos."

Zzzz...

"Filisteus invadem a Criméia e matam mil."

Zzzz...

"Charlie Brown Jr. lança novo CD."

Zzzz...

"Vice-presidente americano Dick Cheney escapa de atentado no Afeganistão."



AAAAAARRRRGGHH! NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOO! PUTA QUE PARIU! TUDO MENOS ISSO!!!!!! POOOOORRRRRAAAAAA!!!!!! CARÁÁÁÁÁIII!!!!



Acordei pouco depois, meio verde, e com as roupas rasgadas. Pelo menos a cueca ficou inteira...

 

 

 

Amazônia - a Grande Saga Brasileira Não Escrita


 

A literatura brasileira é repleta de histórias sobre o Nordeste (antigo eixo econômico/cultural do Brasil) e o Sudeste (atual centro das atenções do País), muitas delas adaptadas para o cinema e televisão. O Sul, mesmo que periférico, ficou culturalmente famoso graças a escritores como Érico Vérissimo, autor da epopéia "O Tempo e o Vento", também magistralmente adaptada para a TV na década de 80, época áurea do "Padrão Globo de Qualidade" (qualquer dia eu compro o DVD com a série).

Só as histórias da Amazônia é que permanecem largamente esquecidas, como os tesouros da mata, esperando alguém para desbravá-las e mostrá-las ao mundo. Os americanos têm o mito do "Wild West", ou "Far West". Nós, sempre fazemos confusão entre Rondônia e Roraima ("qual é o de cima mesmo?"). O que para eles foi um novo começo, um novo ideal, para nós permanece uma incógnita.



Ano passado, a Globo exibiu a minissérie "Mad Maria", sobre a construção da malfadada ferrovia Madeira-Mamoré. Realmente, é uma história e tanto: barões capitalistas sem alma do início do Século XX levando uma leva de caribenhos e alemães para construir uma ferrovia ligando nada a lugar nenhum no meio da selva amazônica, sob as piores condições possíveis. O problema é que a minissérie tinha duas partes: uma, na selva, onde estava a verdadeira ação, com porradaria e malária comendo solto na construção da ferrovia; a outra, no Rio, com as insuportáveis "sub-tramas românticas" que infestam todas as novelas e minisséries da emissora. Ter que dividir minhas atenções entre um capítulo pouco conhecido, fascinante e trágico da História brasileira e os romances fictícios de Percival Farquhar dignos de novela das oito foi um dos motivos para me levar a desistir de acompanhar "Mad Maria". Para não falar no horário ingrato.

Image Hosted by ImageShack.us

"Amazônia - de Galvez a Chico Mendes" também tem um roteiro interessante, a começar pela primeira parte, com a quase inacreditável história da anexação do Acre. É difícil imaginar a disposição de milhares de nordestinos, em fins de século XIX, que se embrenharam mata adentro e foram parar no longínquo Acre, a quase 2.000 quilômetros do centro urbano mais próximo (Manaus). Sem querer, atravessaram a linha imaginária da fronteira boliviana e provocaram a maior anexação territorial brasileira do século XX. Depois, a minissérie terá outras partes, chegando até as lutas de Chico Mendes, o primeiro eco-mártir do mundo.

Seria um marco da televisão brasileira, não fosse por... Glória Perez e sua multitude de subfolhetins românticos e personagens secundários. Claro, não espero que uma minissérie da Globo seja um documentário do History Channel, sei que personagens e romances são necessários para mostrar o "lado humano" da coisa, mas... quando uma "minissérie" caminha para a casa dos 50 capítulos, e ainda nem chegou ao fim da primeira parte, algo está errado. "Amazônia" se transformou num novelão, com suas mulheres patéticas dizendo coisas como "você pensa mais no Acre do que em mim!" para ninguém menos que o fundador do Estado, Oscar Galvez.

Bom, talvez um dia nossos noveleiros/cineastas (cineastas?) aprendam a contar capítulos de nossa História em menos de 200 capítulos, elencos milionários e sub-tramas românticas para agradar a telespectadora viciada em novela. Como os americanos.


 

 

 

 

23 fevereiro, 2007

 

Nota de Esclarecimento


 

Anda navegando pelas caixas de e-mail sertão afora um texto horroroso, mal escrito e falsamente assinado pela escritora Marilene Felinto, que escreve mensalmente na revista Caros Amigos. O texto atribui a culpa pela morte do menino João Hélio aos seus pais, por serem ricos, brancos e de olho azul (!), e diz que os assassinos são vítimas inocentes do sistema blá-blá-blá. Não se trata de um texto anônimo pegando carona num nome conhecido, como é o caso das já famosas crônicas atribuídos a Arnaldo Jabor ou Luís Fernando Veríssimo que vira-e-mexe aparecem em sua caixa de e-mail. Neste caso, trata-se de uma tentativa deliberada e criminosa de desmoralizar a escritora, como uma ridícula prova de que a moça "está dos lados dos bandidos".

A própria Caros Amigos, em sua página na internet, alerta sobre o artigo falso de sua colaboradora, que tem recebido uma enxurrada de e-mails espumando ódio por conta do artigo que não escreveu.

Há uma razão especial para quererem atribuir este texto à escritora: em 2003, ela escreveu o artigo "Morte de Menina Rica e Ódio de Classe", publicado na Caros Amigos, indo contra a corrente de "comoção nacional" provocada pela morte da adolescente Liana Friedenbach em Embu-Guaçu-SP (lembram?). Na ocasião, Marilene Felinto denunciou a hipocrisia da mídia, da polícia e autoridades, em tratar de forma tão diferente as tragédias de ricos e pobres; criticou o rabino Henry Sobel, que propôs a adoção da pena de morte ("o rabino deve ter achado que aqui é uma espécie de Israel – e que a esmagadora maioria dos brasileiros, da classe pobre, é uma espécie de Palestina a ser eliminada da face da terra!"); e apontou a desigualdade social como um motor da criminalidade.

A forma áspera de abordar o assunto e a audácia de ir contra o pensamento único imposto em momentos de "comoção nacional" (problema Tostines: a mídia capta a "comoção nacional" que emana das ruas ou as ruas captam a "comoção nacional" que emanam da mídia?) foram interpretados, por uma larga massa de imbecis que tiveram acesso ao texto, como "defesa dos bandidos" e "apologia ao crime". Principalmente por conta deste artigo, a escritora foi hostilizada através de e-mails e comentários deixados numa comunidade do Orkut aberta por seus admiradores (com a qual a própria escritora não tem qualquer envolvimento). Até a Desciclopédia, normalmente tolerante com as críticas e ofensas deixadas a "personalidades odiadas" precisou bloquear o artigo dedicado à escritora.

Este textozinho sobre o João Hélio é apenas a cereja no bolo de uma campanha covarde de difamação. Se você receber esta porcaria, não a repasse. Melhor ainda: devolva-o à pessoa que o encontrou, alertando-a para largar de ser idiota e não repassar qualquer porcaria que recebe para os outros.

 

 

 

 

17 fevereiro, 2007

 

Precisamos de mais "legislação do pânico"?


 

Com todo este escarcéu promovido pela mídia em torno da mais recente barbárie em terras cariocas - ou você não ouviu falar do menino arrastado por assaltantes? - corremos o risco de ver nosso Congresso "mostrando serviço" para agradar o público sedento e aprovando novas leis penais ao gosto das Hebe Camargos e Luís Datenas da vida.

Em 1990, na esteira dos seqüestros de Abílio Diniz e outros menos abonados (ser seqüestrado era o equivalente, para uma celebridade tupiniquim, a aparecer na capa de Caras atualmente), o novíssimo governo Collor e o Congresso da época aprovaram nas coxas a Lei de Crimes Hediondos, amplamente criticada por juristas como uma excrecência, um exemplo de "legislação do pânico", como definiu o próprio ministro da justiça atual Márcio Thomaz Bastos. A Lei de Crimes Hediondos considera inafiançáveis crimes como tortura, tráfico de drogas, estupro, atentado violento ao pudor, latrocínio, genocídio e seqüestro, e impede também a "progressão da pena" - ou seja, o cara tem que cumprir a pena toda em regime fechado.

Mas os caras foram tão atabalhoados na hora de editar a lei, que esqueceram de incluir "homicídio" (a forma mais banal de crime violento) como crime hediondo. Depois do assassinato de Daniela Perez, filha da novelista Glória Perez, no final de 1992, nova onda de "comoção nacional" irracional, e lá foram nossos legisladores incluir na Lei de Crimes Hediondos os crimes de homicídio qualificado, e homicídio praticado por grupo de extermínio.

Tudo ao gosto da patuléia sedenta por "justiça", não é, Datena? Mais alguma sugestão, Dona Fátima Bernardes? É, Glória Perez, a pena de morte fica pra próxima...

No fim das contas, os juízes têm que se virar com uma lei que, levada ao pé da letra, significa que um sujeito acusado por passar um cigarro de maconha para o outro (crime de tráfico de drogas) tem que ser imediatamente encarcerado em nossas imundas masmorras medievais, não podendo responder ao processo em liberdade, e tendo que mofar pelo menos bons 3 anos da cadeia, sem direito a regime semi-aberto. O mesmo vale prum sujeito preso por "atentado violento ao pudor", crime que tanto pode ser um equivalente ao estupro (só que, digamos, por "outros meios") quanto, em suas formas mais simples, uma mera "bulinada" mal recebida (para não entrarmos no nebuloso "estupro presumido", crime praticado por qualquer adolescente de 18 anos que conseguiu levar a namoradinha de 13 pra dar "uma volta" de carro). No afã de evitar os crimes violentos, a Lei de Crimes Hediondos acaba por banalizar a violência, igualando um maconheiro a um assassino ou seqüestrador.

E, como se não bastasse, mesmo para os crimes "realmente" hediondos, esta legislação é criticada, já que a possibilidade de ressocialização de um sujeito que vai passar os próximos 30 anos sem sair da cadeia nem para trabalhar - como seria no regime semi-aberto - é zero. Sem falar que o Brasil não tem exatamente cadeia "sobrando" para deixar tanta gente presa por tanto tempo.

Como o Congresso novamente tomado pela psicose midiática nacional, o sempre cético Mino Carta já cantou a pedra em sua coluna da revista de que é dono: "Pano rápido: não podemos afirmar, à maneira do jurista alemão Ernest Hirsch, 'que as normas jurídicas têm a mirífica virtude de, quando promulgadas, sujeitar a realidade aos novos moldes'."

Para quem quiser se aprofundar, alguns links:

http://www.advogado.adv.br/artigos/2000/art11.htm - Artigo de um advogado do Pará sobre a Lei de Crimes Hediondos (8.072/90);

http://www.mundolegal.com.br/?FuseAction=Artigo_Detalhar&did=15844 - "LEI DOS CRIMES HEDIONDOS DEVE SER REVOGADA?", por Luiz Flavio Gomes, mestre em Direito Penal na USP;

http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI1412005-EI306,00.html - Matéria do site Terra com a cronologia da Lei de Crimes Hediondos.

 

 

 

 

05 fevereiro, 2007

 

 

Prefeito Gilberto Kassab agride cidadão paulistano


Esse cara vai virar uma espécie de celebridade do Youtube, um novo Jeremias Cabra-Homem.

Dia desses já se queimou com o comentário engraçadinho sobre o motel perto do buraco do metrô. Agora dá um pití desses. Se tinha um doente nessa porcaria de posto de saúde aí, deve ter tido um infarto com essa gritaria do pefelista.

Que estas imagens rodem o Brasil inteiro, e virem o símbolo da decadência do PFL, um dos partidos mais desgraçados da política brasileira (e olha que a competição é dura). E que leve junto pra cova a carreira de jovens "promessas" da picaretagem política, como Kassab, César Maia e o clã ACM.


 

 

 

Rio Body Count


 



Iniciativa do genial André Dahmer, criador dos Malvados.

 

 

 

 

01 fevereiro, 2007

 

"Votei 45 e não me arrependo * "


 

Para quem já se esqueceu:

Em 2002, José Serra disputou a Presidência da República com Lula e perdeu. E perdeu de muito. Natural, para quem estava sendo apoiado pelo então presidente FHC, o sujeito responsável pela decuplicação da dívida pública brasileira, pelo aumento do desemprego e da criminalidade a níveis sem precedentes, pelo apagão e outras "heranças malditas".

Em 2004, Serra se candidatou à prefeitura de São Paulo. Os eleitores paulistanos, talvez os piores do mundo depois dos palestinos, elegeram o careca no primeiro turno. Era bastante óbvio que Serra queria usar a Prefeitura como trampolim político, depois de levar uma traulitada de Lula. Mas Serra prometeu que não deixaria a prefeitura antes do fim do mandato. Deu sua palavra. Do que vale a palavra de José Serra? Vejam o link.

Como é do conhecimento até do mundo mineral (plagiando Mino Carta), Serra saiu da prefeitura depois de 1 ano e meio dos 4 anos do mandato para que foi eleito. Deixou na prefeitura seu vice, um sujeito chamado Paulo Kassab, do PFL. Um vice, ilustre desconhecido, e do PFL. Nada mal, pra uma cidade que já foi governada em era recente por Maluf e Celso Pitta.

Os holofotes desceram sobre Kassab nas últimas semanas, quando ele e seu ex-titular, o agora governador José Serra, tiveram que dar explicações sobre a obra do metrô que desabou e engoliu 7 almas. E Kassab logo caiu nas graças do Youtube, depois de um comentário infeliz sobre os casais que estavam num motel à beira do buraco.

(*) - uma menina no Orkut substituiu o nome dela por esta frase. Uma graça...

 

 

 

Sacudindo a poeira


 

Bom, 2007 taí e... Ah, é um saco ter que começar o ano falando do ano que terminou, do que vai começar, essas convenções de calendário arbitrárias. Pra mim, nada muda, é tudo a mesma bosta de sempre.

O Saddam foi enforcado, uma mineradora fedaputa inundou a cidade de Miraí em sua lama suja, uma cratera se abriu no meio de São Paulo, e... e daí?

Cada vez tenho menos tempo - ou seria paciência? - pra tirar alguma reflexão que preste sobre algum assunto mais ou menos relevante ou não para quem entra aqui. Aliás, quem é que entra aqui? Pelo que sei, a maioria de minhas visitas chegam pelo google, pesquisando algo e caindo no lugar errado. Para elas, este SUBMUNDO é apenas isso: um lugar errado, uma esquina virada na hora errada, um beco sem saída.

Morrer, o SUBMUNDO não vai. Embora isso também não possa garantir.

Vamos ver se a coisa melhora nos próximos capítulos.

 

 

 

 

18 dezembro, 2006

 

Um filme chamado...


 



Este aí é o concorrente libanês ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira do ano que vem.

Talvez o título não tenha ficado muito claro. Sim, é um "b", seguido por um "o", um "s", um "t" e no final, um "a".

No site do filme dá pra ver mais claramente.

Esse filme vai concorrer ainda para ser um dos 5 finalistas que vão aparecer no telão, na grande noite do jabaculê americano. Entre outros concorrentes, está o brasileiro "Dois Filhos do Francisco" - sim, este é o representante brasileiro.

Imagino a saia justa do apresentador no Brasil, caso o azarão libanês seja o premiado: "E o Oscar vai para... o filme libanês de nome impronunciável! Parabéns!"

Já não bastava a seleção da Costa Rica arrumar um goleiro chamado José PORRAS, e os libaneses me vêem com essa. Não há Rede Globo que agüente...

 

 

 

 

17 dezembro, 2006

 

Ó dozinha da classe média...


 

Na falta de capa melhor, Veja resolveu fazer um agrado ao seu público-alvo, repetindo o discurso de vítima da chamada "classe média".



Primeiramente, é preciso chegar a um consenso sobre essa história de "classe média". No Brasil, todo mundo que não se acha pobre nem rico se diz "classe média". Como a maioria dos pobres são orgulhosos demais pra se acharem pobres ("posso não ser rico, mas aqui em casa não deixo faltar nada"), e os ricos têm vergonha de assumirem que são ricos ("rico é o meu vizinho, que tem TRÊS jatinhos. Eu só tenho um!"), então a auto-declarada classe média engloba uns 99% da população brasileira.

Matematicamente, porém, é um tanto estranho uma classe média deste tamanho no país com a pior distribuição de riqueza do mundo, exceto África. Então, se as pessoas não sabem a que classe pertencem, vamos aos números:

De acordo com o IBGE, o PIB per capita do Brasil no final de 2005 era de R$ 10.250/ano. A grosso modo, isso quer dizer que, se dividirmos todas as riquezas produzidas pela economia do País entre todos os habitantes (incluindo aí crianças, donas de casa, idosos, inválidos e até cruzeirenses), cada um leva 10 mil e pouco por ano. Ou R$ 854,17 por mês.

No Brasil, a taxa de fertilidade - média de filhos por mulher ao longo de sua vida reprodutiva - é de mais ou menos 2 filhos por mulher. Logo, uma família "média" brasileira seria composta de pai (nem sempre presente, mas enfim), mãe e duas crianças.

Se o pai ganha R$ 4 mil por mês e a mãe ganha R$ 2 mil, a renda familiar per capita (contando as 2 crianças, que não trabalham mas consomem) será de R$ 1.500,00/mês. Quase o dobro da renda per capita média. Mas esta família, muito provavelmente, ainda se considera "classe média". Dirá o pai, numa entrevista à Veja: "R$ 6 mil por mês é o mínimo para dar uma vida decente à minha família". Dirá isso com um celular que abre, fecha e tira fotos (preço: R$ 1.000,00) no bolso de seu terno Armani (R$ 1.500,00). Acha que está no sufoco, porque está pagando, na fatura do cartão de crédito, as roupas caríssimas da mulher e o tênis Nike Shox do pirralho (R$ 600,00).

O cara que está procurando a janta na lixeira do prédio dele não vai ser entrevistado pela Veja. Mas é possível que também se ache um integrante da "classe média", afinal, veja você, mora no Belvedere! (num lote vago, sob uma cobertura de papelão, mas é no Belvedere).

Os tais "ímpetos de riqueza e progresso" da classe média se resumem a acumular riqueza, comprar celulares e carros importados ("não dá pra viver decentemente só com UMA Mercedez!"), e seguir tratando a empregada de casa como cachorro. Mal posso esperar pelo triunfo da classe média! Aí, sim, o Brasil vai pra frente!

 

 

 

 

16 dezembro, 2006

 

Wikipedia e Unwikipedia


 

Você já deve ter ouvido falar na Wikipedia, uma das mais fantásticas invenções da internet moderna (ao lado do Youtube, do Orkut - apesar dos pesares, e daqueles programas para telefonar de graça). A Wikipedia é uma enciclopédia editada e mantida, quase que totalmente, por usuários anônimos. Um de seus grandes trunfos (e até lema) é que qualquer usuário pode editá-la, acrescentando seus conhecimento e corrigindo as beteiras dos outros. Já a "Veja" fez uma reportagem sobre o Wikipedia e achou isso um defeito. "Como assim, informação que qualquer um edita?" Para "Veja", só é confiável a edição que os Civitas aprovam.

Mas ainda mais sensacional que a Wikipedia é a sua nêmesis, a Unwikipedia, a "Enciclopédia Livre de Conteúdo". Também na Unwikipedia (cuja versão em português é batizada de "Desciclopédia"), todos são livres para editar, mas com um porém: todas as "informações" devem ser falsas. Só é permitido desinformar na Desciclopédia.

Ao contrário da Wikipedia em português, que não é levada muito a sério e é constantemente vandalizada por adolescentes brasileiros idiotas (como no Orkut), a Desciclopédia, apesar de pequena, tem bastante potencial. Ali reside a nata dos humoristas anônimos da internet. Claro, isso até a "ralé" descobrir para esculhambar com a Desciclopédia também.

Quando seus netos estiverem copiando os trabalhos de escola diretamente da Wikipedia, você poderá dizer: "eu me lembro quando a Wikipedia tinha só 1 milhão de artigos, eu a acessava com meu computador de válvulas movido a querosene". Esclerose e nostalgia sempre andam juntas...

Links:

Portal da Wikipedia com todos os idiomas disponíveis

Portal do Unwikipedia

A Desciclopédia, em português

 

 

 

Morre Clay Regazzoni


 



Clay Regazzoni e sua Ferrari em Long Beach, pintura de Nicholas Watts

O ex-piloto de Fórmula 1 suiço Clay Regazzoni morreu num acidente de carro nesta sexta-feira, próximo a Parma (Itália), aos 67 anos.

Correndo pela Ferrari, Regazzoni foi um dos grandes rivais de Émerson Fittipaldi nos anos 70, disputando com o brasileiro o título de pilotos de 1974. Os dois chegaram empatados na última etapa, em Watkins Glen (Estados Unidos), onde Émerson bateu o suiço ao chegar em 4º lugar - Regazzoni foi apenas o 11º.

Em 1980, os dois já estavam no ocaso de suas carreiras, Fittipaldi amargando sucessivas frustrações em sua Copersucar, e Regazzoni lutando em uma fraca Ensign. Na corrida de Long Beach, Regazzoni estava logo à frente de Émerson, defendendo uma excelente 4ª posição. Na freada para um hairpin, o pedal do freio do carro de Regazzoni se quebrou, e o suiço passou reto. Émerson contornou o hairpin e, mesmo com o motor do carro berrando às suas costas, conseguiu ouvir o terrível baque do rival se chocando contra a barreira de proteção. O barulho foi tão forte que Émerson teve a certeza que Regazzoni havia morrido, mas teve o sangue frio de seguir em frente e terminar a prova - que não chegou a ser interrompida - na terceira posição. Aquele foi o último pódio de Émerson Fittipaldi, a primeira vitória de Nélson Piquet, e a única vez em que os dois se encontraram no pódio. Só após a corrida os pilotos tiveram maiores informações sobre Regazzoni: ele sobrevivera, mas sofreu uma lesão na coluna que o deixaria paralítico da cintura para baixo.

Após o acidente, o suiço participou de campanhas voltadas para deficientes físicos, e foi comentarista ocasional de Fórmula 1 para as TVs italianas e suíças.

 

 

 

 

13 dezembro, 2006

 

Menino Velho


 



Tudo bem que a concorrência tem sido fraca, mas esse aí foi o melhor filme que eu vi neste ano.

Assistam. Nem que seja só pela cena em que o sujeito come um polvo inteiro numa bocada só. Vivo.

 

 

 

 

12 dezembro, 2006

 

Uma mentira chamada Chile


 



Fotomontagem do site www.historie.fr

Como todos sabem, Augusto Pinochet abotoou o paletó de madeira domingo passado. Vai, como diria Alborghetti, "sentar no colo do capeta".

A grande imprensa, brasileira ou internacional, tira da gaveta as mesmas fotos e videoteipes de sempre: o palácio bombardeado com Allende dentro, dissidentes tomando porrada, fotos dos desaparecidos. Mas há sempre um "porém" favorável a Pinochet: suas reformas econômicas de cunho liberal e privatizante seriam as responsáveis pelo atual sucesso da economia chilena. O carrasco da esquerda redime-se como um herói maquiavélico do "livre mercado", fazendo afinal "os fins justificarem os meios".

Com a palavra, a grande imprensa:


"Os caminhos do livre mercado, percorridos com êxito pela economia do Chile, fazem parte da herança deixada ex-ditador Augusto Pinochet, que morreu neste domingo aos 91 anos, em Santiago.

Foram os militares que, com a assessoria de jovens discípulos da Escola de Chicago e à luz dos ensinamentos de Milton Friedman, implantaram a "economia de livre mercado", vigente até hoje como legado da cruel ditadura.

Três décadas depois, o Chile se projeta como um dos países de maior expansão na América Latina, com um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) que supera a média da região e que, en 2006, deverá flutuar entre 4,5 e 5%, segundo estimativas oficiais.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) elogiou o manejo das autoridades do Chile, um país 'imune' ao contágio dos vizinhos em crise, segundo o diretor-gerente da organização, Horst Koehler." (Texto da France Presse, reproduzido no portal G1, da Globo, no UOL e no portal Terra)


"Sob seu regime, mais de 3.000 pessoas foram mortas por sua polícia secreta. Sob seu regime, foram lançadas também as bases para a modernização e fortalecimento da economia chilena."(site "Último Segundo", da IG)


"A reforma econômica se seguiu dentro dos princípios do livre-mercado.

Companhias que haviam sido nacionalizadas voltaram às mãos dos seus antigos proprietários.

Barreiras alfandegárias foram cortadas para encorajar importações de produtos importados e houve uma ênfase renovada nas exportações.

O General Pinochet disse certa vez que seu objetivo seria "fazer do Chile não uma nação de proletários, mas uma nação de empreendedores". (da BBC Brasil)


"O ex-ditador chileno Augusto Pinochet morreu sem jamais ter sido condenado pelos crimes que cometeu em seus 17 anos de governo, mas o celebrado modelo de livre mercado que promoveu continua vivo entre seus opositores que governam o Chile.

Pouco depois do golpe militar de 11 de setembro de 1973, em que derrubou o Salvador Allende, Pinochet cercou-se de economistas, vários formados pela Universidade de Chicago, e implantou reformas profundas, que se transformaram nos pilares de uma economia que arranca sorrisos em Wall Street.

No governo Pinochet, com custos para a sociedade, o Chile abriu-se para o comércio exterior, os preços foram liberados, as contas públicas foram reguladas, a maioria das empresas estatais foi vendida e a Previdência foi privatizada, entre outras mudanças.

As reformas foram imitadas por outros países latino-americanos, como Argentina Peru e México. Há anos, a economia chilena é a que tem o menor risco de crédito em toda América Latina".(texto da Reuters/Brasil, reproduzido no portal Globo.com)



O Chile é venerado como a meca do "livre-mercado" na América Latina. É o exemplo que países como Brasil e Argentina devem seguir, mas para isso têm que ficar longe de
"caudilhos populistas" do tipo Chávez, Kirchner, Lula e Evo Morales, e acima de tudo, pagarem suas contas e seus juros de dívidas escorchantes em dia. Se é o que toda a imprensa nacional e internacional diz, devem estar certos.

É ou não é?

Não é não, diria Greg Palast, jornalista americano do "New York Times" e do britânico "The Observer". Discípulo renegado de Milton Friedman, Palast disseca o mito criado em torno da "liberalização" da economia chilena sob a mão pesada de Pinochet nas páginas do seu best-seller "A Melhor Democracia que o Dinheiro pode Comprar". Trecho:




"Em 1973, ano em que o general tomou o governo, o índice de desemprego no Chile era de 4,3%. Em 1983, após dez anos de modernização e livre mercado, o desemprego chegou a 22%. O salário real caiu cerca de 40% sob o regime militar. Em 1970, antes de Pinochet subir ao poder, 20% da população chilena vivia na pobreza. No ano em que o "presidente" Pinochet deixou o cargo, o número de destituídos havia dobrado para 40%. Que milagre!

Pinochet não destruiu a economia do Chile sozinho. Foram precisos nove anos de trabalho duro das mentes brilhantes da academia, aquela corja de 'trainees' de Milton Friedman, os Garotos de Chicago. Seguindo os feitiços teóricos, o governo aboliu o salário mínimo, cassou os direitos trabalhistas negociados pelos sindicatos, privatizou a previdência social, acabou com todos os impostos sobre renda e lucro, fez cortes drásticos no funcionalismo público, privatizou 212 estatais e 66 bancos e produziu superávit fiscal. (...)

Livre da presença opressiva da burocracia, dos impostos e dos sindicatos, o país deu um grande salto... para a bancarrota. Após nove anos de medidas econômicas ao estilo de Chicago, a economia chilena definhou e morreu. Em 1982 e 1983, o PIB caiu 19%.

Os Garotos de Chicago convenceram o governo militar que o fim das restrições aos bancos nacionais iria libertá-los para atrair o capital estrangeiro, que financiaria a expansão industrial (...). Seguindo esse conselho, Pinochet vendeu os bancos estatais - por um preço 40% abaixo do "book value", o valor contabilístico - e eles caíram rapidamente nas mãos de dois conglomerados imperiais controlados pelos especuladores Javier Vial e Manuel Cruzat.

Pinochet deixou os especuladores à vontade por muito tempo. Ele foi convencido de que o governo não deveria interferir na "lógica" do mercado. Em 1982, o jogo financeiro no Chile havia acabado. Os grupos de Vial e Cruzat ficaram inadimplentes. Indústrias foram fechadas, a previdência privada não valia mais nada, o câmbio teve uma síncope. As greves e protestos de uma população faminta e desesperada demais para temer os fuzis fizeram Pinochet mudar o rumo da economia. E ele chutou seus queridinhos experimentalistas de Chicago.

Ainda que de maneira relutante, o general ressucitou o salário mínimo e devolveu aos sindicatos a condição de negociar coletivamente os direitos trabalhistas. Pinochet, que havia dizimado o funcionalismo público, aprovou um programa para a criação de 500 mil empregos. Seria o equivalente, nos Estados Unidos, ao governo contratar 20 milhões de pessoas. (...) O governo instituiu uma lei restringindo a entrada do capital estrangeiro - um das poucas remanescentes até hoje na América do Sul.

As táticas do New Deal resgataram o Chile em 1983, mas a recuperação de longo prazo e o crescimento do país desde então são resultado - tape os ouvidos das crianças - de uma boa dose de socialismo. Para salvar a previdência social do país, Pinochet estatizou os bancos e a indústria numa escala inimaginável para o socialista Allende. O general simplesmente desapropriou à vontade, oferecendo pouco ou nada em troca.

Apesar de a maioria dessas empresas acabar voltando, após um período, para a iniciativa privada, o Estado continuou a ser proprietário da indústria de cobre.

A especialista em metais da Universidade de Montana, dra. Janet Finn, afima: 'é um absurdo retratar uma nação como exemplo do milagre da livre iniciativa quando o motor da economia continua nas mãos do governo' (...). Do cobre vêm entre 30% e 70% dos ganhos do país com exportações. Essa é a moeda forte que construiu o Chile de hoje, a produção das minas de Anaconda e Kennecott, estatizadas em 1973 - o presente póstumo de Allende a seu país."



Mesmo com as medidas "nacional-desenvolvimentistas" de Pinochet após a crise de 82-83, e os presidentes que se seguiram à ditadura - 2 deles socialistas, Ricardo Lagos e Michelle Bachelet - o Chile ostenta uma das piores distribuições de renda do mundo, superados na América do Sul somente pelo Brasil. Claro, nossos analistas parecem mais entusiasmados com as virtudes do livre mercado do "país dos empreendedores". Com pobre pedindo esmola, já estamos mais do que acostumados.



(Fazendo carinha de mau, liderando a Junta Militar que tomou o país literalmente de assalto depois do golpe. Satanás precisa se preocupar, senão tomam a rapadura dele também por aquelas bandas...)

 

 

 

 

12 novembro, 2006

 

Meu pequeno triunfo


 



Meu mouse (que ainda é aquele com uma bolinha dentro, velha guarda) começou a agir por conta própria e tomei a decisão de, pela primeira vez na vida, abrí-lo para uma limpeza mais profunda.

Aviso: NÃO TENTEM FAZER ISTO EM CASA!

Após retirar o parafuso com uma chave-de-fenda - obrigado, mamãe, agora não preciso ficar usando facas de manteiga e cabos de colherzinha - o bicho desmontou-se totalmente em minhas mãos. Entre as peças, duas minúsculas molinhas, que me deram uma surra durante 2 horas tentando descobrir de onde vieram.

A maioria das pessoas normais teria simplesmente largado essa bugiganga de lado e comprado um mouse ótico de 10 reais made in China no hiper-mercado mais próximo. O problema é que, se todo mundo pensar assim, o País vai ficar sempre dependendo de exportações de soja plantadas por destruidores da Amazônia para compensar as importações na Balança Comercial. Além disso, os recursos utilizados na fabricação de um mouse (principalmente, petróleo, pra fazer o plástico e pra trazer o mouse da China de navio até aqui) não são renováveis, traduzindo num futuro mais sombrio e pior para nossos filhos.

Claro, não foi por nenhuma destas excelentes razões que me debrucei diante do pequeno quebra-cabeças de tecnologia obsoleta. Apenas gosto de desafios, melhor ainda se não tiver nenhuma importância. Montar o mouse, só com a bolinha e os 2 botões no lugar, qualquer chimpanzé amestrado é capaz. Mas o "scroll wheel", isso é, aquela rodelinha giratória no meio dos botões - meu mouse não é tão obsoleto assim - tem que ficar preso às tais molinhas e a uma pecinha de plástico cujo encaixe também demorei a descobrir qual era. Procurei até na internet alguma orientação pra remontar a bagaça, num momento de fraqueza, mas tudo que obtive foi alguns "manuais de limpeza de mouse para loiras".

Acreditem ou não, ver meu mouse remontado, limpo, em perfeito funcionamento, e o fato de ter conseguido isso sem nenhuma ajuda externa, garantiu a felicidade de meu domingo.

 

 

 

 

13 outubro, 2006

 

Copiaram minha idéia!


 

Acho que a cúpula do PT anda lendo este prestigioso SUBMUNDO.

Outro dia mesmo estava falando aqui sobre os vestidinhos de Dona Lu Alckmin. Aí o Valter Pomar, secretário de Relações Institucionais do PT, foi lá no site do partido e chamou o Alckmin de hipócrita e "moralista de ocasião", fazendo o seguinte comentário:

"Alckmin não deveria colocar o debate neste nível. Afinal, alguém poderia perguntar se ele sabia que sua filha é funcionária de uma empresa acusada de contrabando e se ele tinha conhecimento que sua esposa ganhou de presente 400 vestidinhos chiques."

A campanha do Lula logo mandou tirar o artigo do ar. Afinal, apesar de toda a fúria investida pelo candidato do PSDB contra a candidatura Lula, e vice-versa, impera entre os dois um "acordo de cavalheiros" pra um não falar da família do outro. Lula, diga-se de passagem, tem ojeriza à possível exploração eleitoral do suspeito investimento da Telemar na empresa de seu filho, a GameCorp.

Alckmin revidou reclamando de "sujeira" e "baixaria". No dos outros, é refresco, né Geraldo?

 

 

 

 

09 outubro, 2006

 

Tensão Pré-Eleitoral


 

Pela mixaria de 1 milhão de votos, teremos que aguardar a decisão do Segundo Turno das eleições presidenciais para saber se o País continua uma porcaria, ou piora de vez.

A besta aqui que vos escreve já fez, há muito, sua opção, e ela é bastante óbvia. Tão óbvia quanto a opção da Veja, por exemplo, com a diferença que aquela se pretende imparcial e baseada apenas no "bom senso", jamais em inclinações político-ideológicas, afinal, ideologia é coisa de comunista.

O problema, para nosotros, não é fazer opções, e sim os riscos envolvidos. A perspectiva de uma vitória do candidato Geraldo - assim mesmo, sem sobrenome, que é como seus marketeiros recomendam - me deixa tenso, e desperta o que há de pior em mim.

Ontem estava vendo "Geraldo" chegando aos estúdios da Bandeirante para o debate, acompanhado de sua esposa, Lu. Não, ela não é chinesa, apenas prefere esse monossílabo que seu nome de batismo. Acho que o nome disso é "estilo". Olha ela aí embaixo, toda elegante:



Por alguma razão que só Freud (não o do PT) explica, ao ver a Sra. Lu acompanhado o marido presidenciável, senti um súbito impulso de retalhar seu rosto cuidadosamente maquiado com uma adaga medieval bem afiada, fazendo traços decididos e retilíneos de uma ponta à outra, como um Jedi faria com seu sabre de luz, com tal destreza e agilidade que, antes mesmo que os seguranças percebessem, sua carinha de socialite estaria transformada em uma tosca imitação da bandeira da Grã-Bretanha. Como toque final, enfiaria a adaga no meio do olho arrancando-o da cavidade craniana ainda com o nervo pendurado, como o cordão umbilical de um recém-nascido. Nem Ivo Pitangui daria jeito.

Nada pessoal contra Dona Lu, afinal, o capitalismo tende mesmo à acumulação de riquezas, trazendo como conseqüência desagradável as madames, seus poodles e os preços absurdos da comida japonesa. Minha birra é contra os eleitores do Alckmin no Orkut (imagino que também em outros lugares, felizmente tenho pouquíssimo convívio com eleitores do Alckmin na "vida real"), que mostram a "futura primeira-dama" como um troféu, uma "vantagem" comparativa do candidato tucano em relação à mulher meio-baranga do Lula. Tem até "trabalho social", de caridade, presidindo o chamado "Fundo Social de São Paulo" enquanto o marido era governador. E a Marisa do Lula, "pra que serve?", pergunta uma comunidade do Orkut.

Por que uma "primeira dama" precisa virar alguém importante, com visibilidade, algo mais do que simplesmente "esposa do Presidente"? Já não basta ter que eleger o Vice-Presidente junto com o Presidente, agora temos que engolir na mesma chapa uma "Primeira Dama" também?

Quem começou essa onda no Brasil foi a Rosane Collor, com sua Legião Brasileira de Assistência (LBA) cheia de furos contábeis. Depois veio Ruth Cardoso com seu "Comunidade Solidária". Não há nada de mau em ajudar os outros, mas acho muita cara de pau fazer isso só após ser alçada a uma posição destacada, como a de primeira-dama. Talvez Dona Ruth nem tanto, mas Rosane Collor dava a nítida sensação de artificialidade, de ter fundado a LBA só para se sentir útil e capitalizar de sua posição de "primeira-dama".

Pior que suas antecessoras, a hipocrisia da "preocupação social" de Lu Alckmin salta aos olhos por três razões básicas:

(1) Só se envolveu com a caridade depois que o marido já era governador e possível presidenciável (antes disso, estava ocupada demais com a "criação dos filhos", disse numa entrevista à IstoÉ Gente).

(2) Sobe favela ostentando vestidos de alta costura made by estilista dos Jardins, ou comprados na Daslu, que saem por até R$ 15 mil cada. Aliás, o estilista Rogério Figueiredo afirma ter doado alguns vestidos de sua autoria pra ex-primeira dama. Uns QUATROCENTOS, mais ou menos. O caso suscitou uma comparação com a filipina Imelda Marcos, publicada na Agência Carta Maior.

(3) Dá a mão aos pobres ao mesmo tempo em que posa como "vitrine feminina" do PSDB, partido que em 12 anos no governo de São Paulo e 8 no governo federal provocou um crescimento do desemprego e da criminalidade nunca antes visto na história brasileira, ao mesmo tempo em que enriqueceu minorias e deixou como legado cofres vazios e escolas de lata.

Ciro Gomes estava certo quando disse que a principal função de sua esposa - a bela Patrícia Pillar - na sua campanha presidencial de 2002 era "dormir com ele". Fui crucificado como machista. Nada contra a primeira-dama ter vida própria, mas sim contra transformá-la em celebridade ou santa, ou as duas coisas. Além do que, ser a confidente mais íntima do mandatário da Nação já é responsabilidade suficiente.

Agora, boa mesmo era a "primeira-dama" do Itamar. Hipocrisia zero, mostrou bem a que vinha.


 

 

 

Concorrência desleal


 

Justamente no dia e hora em que a Bandeirantes exibia o debate entre os candidatos a Presidente, a Record resolveu exibir o filmaço abaixo:



Entre as aventuras de Michael J. Fox e os ataques de Geraldo Alckmin, confesso que fiquei balançado. Minha preocupação com o futuro da Nação foi em vários momentos vencida pela minha nostalgia por um ícone da chamada "década perdida".

Mesmo assim, a Band conseguiu 16 pontos de IBOPE, maior audiência desde as Olimpíadas de 2004.

Espero que a Record não apronte nos próximos debates exibindo o restante da trilogia. É muita sacanagem.

 

 

 

 

06 outubro, 2006

 

A sutil diferença entre um bandido e um malaco


 

Como sempre faço de vez em quando, resolvi dar uma caminhada, mais por falta do que fazer do que por cuidado com minhas coronárias gradualmente entupidas com gordura de bacon e biscoito recheado.

Na subida da Avenida José Cândido, um outro caminhante resolveu puxar conversa. Perguntou o que eu fazia, disse que "tinha o vírus" e estava precisando comprar remédio. Morro acima, disse também que estava armado, que era foragido da Justiça, e me convidou a ir num caixa automático pra tirar uma grana. Falou para eu não correr nem fazer nenhuma bobagem, afinal, "pra quê desperdiçar sua vida por tão pouco?"

Faltava um incisivo central na boca do sujeito, que trajava uma camisa do "Racionais MC's" preta maior que seu número, uma pochete - excelente para esconder celulares e jóias roubadas - e um óculos escuro. Tentava parecer amistoso, ao mesmo tempo em que ameaçava enfiar uma azeitona na minha testa.

Expliquei pra ele que não poderia sacar dinheiro, porque não tinha um tostão na minha conta (não estava mentindo). Ele perguntou sobre o celular no meu bolso, mas o convenci de que não valia a pena. Por fim, pediu minha aliança de noivado. A essa altura, obviamente, já sabia que tudo passava de um blefe. Falei que não poderia dar a aliança. Tinha valor sentimental.

Ele então se despediu, com um aperto de mão (!). Pediu pra eu "não comentar com ninguém". Resolvi não interromper minha caminhada por tão pouco. Na volta, achei um posto policial e dei a descrição do meliante. Possivelmente não vai dar em nada, mas pelo menos fico com a consciência limpa.

Não é a primeira vez que isso me acontece. No Centro, dois caras me pararam uma vez com uma conversa de "acabei de fugir da cadeia, me vê uma grana aí, xará". Acabaram me levando uns 20 contos. No dia seguinte (sem sacanagem), um cara veio com a mesma conversa, e eu neguei. Era um só, o dia estava claro, e ele francamente não me convenceu.

Em Valadares, já há vários anos, um pateta numa bicicleta enfiou a mão debaixo da camisa e veio pra cima de mim: "me vê esse relógio aí senão te dou um tiro!" Olhei estupefato e ele: "não vai dá não? Ó, eu vou contar até três! Um... dois... Vai me dá o relógio ou não?" Depois ele disse que estava só bricando.

Entre o mendingo na esquina expondo sua miséria a troco de algumas moedas, até o bandido que aborda o motorista no sinal enfiando um revólver na sua têmpora, há toda uma zona cinzenta de marginalizados que podemos classificar como "malacos". O malaco não se satisfaz com a simples mendicância, mas também não quer se arriscar com a incerta carreira de assaltante "per se". Assim, capitaliza em cima da crescente paranóia dos "classes médias", pedindo com tom de falsa ameaça. Passam do "uma ajuda, por favor" para um "me vê um trocado aí, senão..." Mas se você não demonstrar medo e não der, o malaco simplesmente vai atrás de outra vítima, alguém que prefira não arriscar.

Viver nas médias e grandes cidades brasileiras implica em, cedo ou tarde, esbarrar com um malaco numa esquina, e jogar pôquer com sua vida, em troca do seu celular, relógio ou dinheiro. Sempre dizem pra "não reagir", mas é do nosso instinto (do meu, pelo menos) não se render por muito pouco. Às vezes, o malaco pode estar a armado e cumprir sua ameaça. Mas viver é correr riscos.

 

 

 

 

16 setembro, 2006

 

Remoendo velharias


 



Construídas em 1972, as torres do World Trade Center desbancaram o Empire State Building de sua posição de prédio mais alto de Nova Iorque e do mundo, mas nunca foram vistas com a mesma veneração pelos locais.

Em parte, por complicar ainda mais o trânsito do sul de Manhattan com seu fluxo de quase 250 mil pessoas por dia. O historiador Lewis Mumford, especializado em tecnologia e urbanismo, descreveu o WTC como "exemplo do gigantismo sem propósito e exibicionismo tecnológico que estão se enviscerando no tecido vivo de toda grande cidade".

Outro motivo para a pouca popularidade das torres era sua monótona arquitetura. Os nova-iorquinos apresentavam o WTC aos visitantes brincando "o Empire State Building e a Chrysler Tower não foram exatamente construídos aqui: eles vieram dentro daquelas duas caixas."

 

 

 

 

04 setembro, 2006

 

A feliz família Kim


 

Achei esta foto no Wikipedia. Tirada em 1945, retrata uma família oriental pequena e feliz, como bilhões de outras, com uma pequena particularidade: pai e filho foram (e são) manda-chuvas de um dos regimes mais opressores e assassinos já conhecidos na História.



O pai é Kim Il-Sung, fundador do regime comunista da Coréia do Norte, venerado no lugar como um semi-deus e falecido em 1994. Ao longo do seu mandato (1948-1994), transformou um regime inicialmente leninista-marxista em algo mais focado no culto à personalidade e militarismo excessivo. Após sua morte, passou a ocupar o posto simbólico de "Presidente Eterno".

O menino no colo brincando com seu quepe é Kim Jong-Il, que o sucedeu e manda por lá até os dias correntes. Mantêm a insensatez de um regime em que todos os jovens em idade militar andam uniformizados, mas falta comida. O curioso da história é que, nas primeiras décadas após a separação das Coréias, o padrão de vida no lado socialista (Norte) era bem superior ao do lado Sul. Hoje, a coisa se inverteu drasticamente.

A Coréia do Norte faz parte do que o governo Bush chama de "Eixo do Mal". Considerando o que Bush fez com o mais fraco dos 3 integrantes originais do Eixo, até que não é uma má idéia continuar fabricando foguetes e bombas atômicas.

Já a muié da foto, com cara de mau humorada, é a menos conhecida da família mas nem por isso uma personagem menos interessante. Kim Jong-Suk era uma jovem revolucionária que ajudou a combater os japoneses, que ocuparam a península da Coréia entre 1910 até o fim da Segunda Guerra. Na guerrilha e nas andanças com os comunas, conheceu Kim Il-Sung, com quem se casaria mais tarde. O primeiro filho do seu casamento foi Kim Jong-Il, nascido em 1941. Em 1949, com apenas 32 anos de idade, morreu ao dar à luz um bebê natimorto. Recebeu postumamente o título de herói nacional.

 

 

 

 

03 setembro, 2006

 

Campanha de Resgate do Fliperama


 



Quando eu era criança pequena lá em Barbacena, quer dizer, Arcos, meu buteco preferido era um quase em frente à Igreja Matriz, na chamada "Praça da Matriz". Era bem longe de onde eu morava (Bairro Brasília, perto do "Cipó-Pau", hoje chamado de "Cipó-PUC" por sua vizinhança com a nova universidade), principalmente se levarmos em consideração que uma criança precisa dar uns 2 ou 3 passos para andar a mesma distância que um adulto com um passo. Íamos eu e meu irmão, às vezes acompanhados da mãe, mas depois de um tempo íamos sozinhos.

Calma, não éramos alcólatras-mirins não. Íamos atrás de guloseimas baratas e... FLIPERAMA!!!

O que havia de mais semelhante a um Fliperama em Arcos nos anos 80 era esse buteco perto da Matriz. Acho que haviam umas 3 máquinas lá, mais 2 pinballs. Os jogos disponíveis mudavam às vezes, mas lembro-me particularmente de um de corrida (o "Grand Prix", mais conhecido na versão "cabine", mas lá no boteco era jogado em pé mesmo) e o dificílimo "He-Man", onde eu não passava da segunda fase. Outra coisa que me chamava a atenção no buteco era a tabela de preços, com letras de plástico amarelas em um fundo preto, acompanhada ao lado de uma tabela semelhante, mas contendo apenas os nomes dos "mau pagadores" que haviam passado cheque sem fundo no dono.

Não é à tóa que as raras idas aos shoppings de BH eram aguardadas com grande ansiedade: os fliperamas do BH Shopping nos deixavam embriagados de excitação. Ficávamos elétricos em meio a tantas opções, e acabávamos gastando milhares e milhares de cruzeiros (ou o equivalente a 5 reais) em questão de minutos.

Depois que nos mudamos para Valadares, e já mais crescidinhos, passamos a freqüentar os fliperamas locais - sendo nosso favorito o da Rua Barão do Rio Branco - bem superiores ao buteco de Arcos e que deixavam pouco a dever aos de Belo Horizonte. Estes fliperamas eram uma espécie de território anárquico juvenil, em que quase tudo era permitido, inclusive xingar, dar joelhadas na máquina quando engolia a ficha (sempre funcionava), roubar o boné do cara que tava jogando e arrotar alto - peidar já era demais. A única autoridade adulta no lugar era uma muié que ficava atrás de uma mesa vendendo fichas e contando as horas para "encerrar o expediente". Naquela época acho que não existia "juizado de menores" para nos proibir de freqüentar fliperamas desacompanhados dos pais ou mesmo vestindo uniforme de escola. O fliperama da Barão me ensinou cerca de 75% dos palavrões que conheço hoje, e me deu o mau hábito de chamar a Chun-Li do Street Fighter de "pirainha".

Pois bem. Hoje o meninão de 26 aninhos aqui ainda freqüenta esporadicamente os fliperamas dos shoppings de BH. Só que não existem mais fliperamas "per se" nos shoppings, e sim um emaranhado de lan-house com parque de diversões com piscina de bolinhas em que há, também, máquinas de fliperama. Normalmente, esses "emaranhados" pertencem a uma cadeia tipo "Hot-Zone", e as velhas fichas perderam lugar para cartões magnéticos retornáveis - até um tempo atrás, estes cartões não eram retornáveis, custavam 1 real e só podiam ser utilizados naquela loja determinada, mas felizmente acabaram com essa sacanagem.

Bem, tudo isso seria perfeitamente tolerável. Já não é de hoje que os fliperamas foram "invadidos" por outras formas de diversão. Mesmo no fliperama da Barão, em Valadares, já haviam uns Super-Nintendos e Mega-Drives de aluguel convivendo em harmonia com os "arcades". Os brinquedos para crianças também não chegam a incomodar. E a nostalgia das fichas diminui à medida em que nos lembramos de quando a máquina comia a ficha e o dono do lugar se recusava a acreditar na sua história.

Mas o que torna minhas idas ao Fliperama hoje um suplício é o maldito KARAOKÊ!



Se os karaokês de Fliperama estivessem sempre acompanhados de uma loiraça bunduda dessas, ninguém reclamava. O problema é que, via de regra, há sempre um adolescente barango cantando o último sucesso do Sowetto, Kelly Key ou o funk da moda para o andar inteiro do shopping ouvir. Como o karaokê é sempre disputado, os donos do lugar sempre diminuem os volumes das máquinas de fliperama, mas aumentam o do maldito karaokê, para que o desinfeliz possa ouvir sua própria voz.

No passado, você entrava no fliperama e escutava o "raiúguet" do Street Fighter, barulhinhos de porrada do Final Fight, o motor do carrinho do jogo de corrida, tudo compondo uma orquestra de sons digitalizados acompanhando os ruídos dos botões apertados com fúria e os xingamentos dos jogadores. Hoje, tudo o que você escuta ao entrar no fliperama é um desafinado cantando "Eu não sei paráááááá de te olháááá... Não sei pa-RÁÁÁÁÁ..." (o grito é tão forte que as janelas tremem, as crianças começam a chorar com dor de ouvido).

Não tenho nada contra Videokês. Já até cantei muito neles, devo admitir. Mas tem que haver um ambiente apopriado para eles, de preferência bem longe, num bunker com isolamento acústico à prova de catacombes nucleares. Não no meu, no seu, no nosso fliperama!

 

 

 

 

01 setembro, 2006

 

Superman: "dê um tapa na cara de um japa!"


 

Essa aí é a capa de um gibi do Superman editado durante a participação dos EE.UU. na Segunda Guerra, contra o Japão.



Só não entendi a parte dos "War Bonds" e "Stamps". Será que era alguma forma de financiamento das Forças Armadas deles, tipo "a renda arrecadada com a venda deste selo será revertida para o Projeto Manhattan"?

Achei no blog do Ferréz.

EDIT: Graças à contribuição do nosso prestimoso X-Kuéi, que pesquisou no Wikipedia no lugar do preguiçoso aqui, descobri que "War Bonds" e "War Stamps" eram isso mesmo: formas de financiamento das Forças Armadas americanas na II Guerra. Os "bonds" eram títulos, uma espécie de caderneta de poupança no valor de 25 dólares (que na época eram uma grana boa, equivalente hoje a mais de 300 doletas), resgatável em 10 anos.

Já os selos ("stamps") eram direcionados para as crianças (!), em valores menores (até 5 dólares), e também resgatáveis.

Além de financiar a indústria armamentista e a destruição do Japão, a compra destes títulos e selos ajudou a conter a inflação causada pelo crescimento da atividade econômica, tirando moeda de circulação.

 

 

 

 

30 agosto, 2006

 

"Não somos racistas"? Não tenho tanta certeza...


 

Se fosse só mais um sociólogo comunista da Fafich por aí, ninguém dava bola, mas o cara é ninguém menos que o próprio "Diretor de Jornalismo da Globo", aí o assunto ganhou pauta nacional.



Ali Kamel conseguiu uma façanha: reunir (no caso, literalmente "re-unir") a esquerda dos movimentos sociais e do PT com os sociólogos da escola paulista liderados por Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso, contra ele. Basicamente (o livro tem 144 páginas, vai encarar?), trata-se de um estudo e manifesto contra a política de cotas raciais - ou ação afirmativa - nos vestibulares e onde mais sobrevier, sob o argumento de que o Brasil é um País miscigenado, e que a verdadeira desigualdade a ser atacada é a social, e não a racial. Mesmo porque, aponta Kamel, o conceito de "raça" na espécie humana já foi há muito desqualificado pela ciência moderna, já que um negro, um branco e um chinês têm todos 99,99... dízima períodica porcento de genes em comum, exceto os que determinam cor da pele e outras perfumarias desimportantes.

Kamel alerta que a política de cotas pode trazer, como reação, ódio social e rancor inter-raças (ou devo dizer, "inter-cores"?) dos que ficarem excluídos. As cotas poderiam assim dilapidar nossa identidade miscigenada e instituir a idéia de um Brasil "bicolor", com divisão de raças e sectarismo à la EUA.

Claro que tudo isso é um reducionismo cretino, já que eu não li nem vou ler o livro do Kamel - nada pessoal, só que há autores mais interessantes mofando na fila de espera da minha estante - e estou me baseando numa entrevista concedida por ele ao Estado de Minas.

De toda forma, o "Não Somos Racistas", assim à primeira vista, parece basear-se em algumas teses simplesmente furadas.

Primeiro que essa história de "país miscigenado" cola só até certo ponto. Não dá pra negar nosso passado escravocrata - e dentre os países que contam, fomos o que demoramos mais para libertar os negros. Apesar da relação sempre promíscua entre Casa Grande e Senzala, as estatísticas apontam que a população "enegrece" à medida em que se desce nas pirâmides sociais. Conta-se nos dedos os negros nos coquetéis da elite tupiniquim; em compensação, um brasileiro negro terá muito mais histórias de discriminação e abuso policial para contar do que um branco da mesma classe social. A miscigenação não exclui o preconceito; a genética pode ser mestiça, mas cor da pele conta muito na entrevista de emprego e nas blitz da polícia. Pergunte a um negro.

Já essa história de política de cotas gerar "ódio e rancor social" soa-me como puro embuste. Nas palavras do Kamel, "o maior perigo de surgir ódio racial é negar um direito a uma pessoa apenas pela cor da pele". O branco favelado que não tivesse acesso à cota racial ia ficar com raivinha do seu vizinho negro. Bom, se o problema for este, acho que o jornalista-sociólogo chegou com atraso: milhões de brasileiros vêem seus direitos constitucionais negados não pela cor da pele, mas por sua origem social. Isso já gera rancor suficiente, vide a crueza com que os jovens pobres se referem aos "playboys do asfalto", e vice-versa, a visão estigmatizada que a classe média faz do "favelado", da "gente feia". Desde que as cotas raciais não existam isoladamente - ou seja, que também os brancos pobres sejam assistidos, como já são, por programas semelhantes como o Pro-Uni, o financiamento estudantil e, futuramente, as cotas para estudantes de escolas públicas nas universidades federais - elas vão atuar justamente para diminuir esta tensão social, dando oportunidades a quem normalmente não teria.

Mal comparando, já que cor da pele não é deficiência: há algum tempo, os concursos públicos e seleções de emprego reservam um percentual de vagas para portadores de deficiências físicas - ou "necessidades especiais", em politicamente-corretês. O sujeito que anda de cadeira de rodas, mas é dotado de plena capacidade mental, e pode inclusive ser filho de família riquíssima, faz o concurso e passa mesmo com uma nota mais baixa que o concorrente que anda em duas pernas, e é pobre até o Bombril da antena. Já viu alguém ficar puto e empurrar deficiente com cadeira de rodas ladeira abaixo por causa disso? Aliás, quando você faz um concurso público ou vestibular e não passa, fica conjecturando sobre quem passou no seu lugar? Ou diz "foda-se" e tenta estudar pro próximo?

O pensamento de Kamel reflete o de boa parte da elite e classe média brasileira, só foi se preocupar com as "injustiças" do vestibular quando esta se virou contra eles. Quando estava a favor, ou seja, o pobre saído de uma escola pública arruinada competindo num vestibular contra o egresso de cursinhos e escolas pagas, não tinha problema nenhum. Chamavam de "igualdade de condições" até...

Quem tiver ânimo pra ler o livro e provar que eu estava errado, favor clicar no "Comments" aí embaixo.

 

 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?